ATENÇÃO POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS A MINHA REVELIA
O neoempirismo
Eliane Colchete
Este blog integrou a série de estudos intitulados "geo-ego-logia" que publiquei há alguns anos na internet. A "geo-ego-logia e alter-egologia são conceitos que definem minha proposta teórica de leitura da modernidade como discurso ocidentalista (ocidente como sujeito da história), assim como a margem como cópia (alter-ego) do ocidente. Ou seja, visando a ciência como discurso do imperialismo, o que tenho desenvolvido em vários blogs como estudos sobre temas específicos da modernidade.
Porém a mencionada publicação inicial foi interrompida pelo provedor e o texto teve que ser segmentado em vários blogs que não estão revisados. Aqui trata-se do trecho que focaliza o neoempirismo.
A metade inicial do século XX, na geo-ego-logia, corresponde à "fase fálica" do inconsciente geopolítico ocidentalista. Utilizo os termos das fases do inconsciente freudiano, porém para mostrar que elas apenas reproduzem o discurso do ego ocidental, assim como a própria psicanálise. Sendo a margem anexável o objeto ("primitivo") para o Sujeito da História ("civilizado"), num discurso do desenvolvimento cujo telos é o objeto ideal de fato platônico - ou seja, fora do devir.
A fase fálica se estabelece com a ambiguidade característica psicanaliticamente definida, mas no círculo hermenêutico e humanismo, entre sujeito e sociedade. O que reproduz a ambiguidade ocidental do primitivo que nessa época pós-positivista era visado novamente como bom selvagem, porém sem sociedade, apenas comunitário.
O neoempirismo deveria ser a corrente antagônica dessa hermenêutica, porém como aqui podemos verificar, não destoou de fato da ambiguidade imperialista, nem se entreteceu de forma indiferente a essa questão.
1)
Assim como as ciências humanas, a epistemologia tem sido acantonada pelos
estruturalistas e pós-estruturalistas, e para efeitos condenatórios, numa de
suas derivas em termos de um procedimento de formalização a posteriori dos
procedimentos de inteligibilidade puramente científica, isto é,
objetiva-positiva.
Ou seja, na deriva que em vez de imanente a elas mesmas como humanities, foi produzida pelo neoempirismo como um discurso de unificação das ciências promovido em torno da concepção das ciências naturais e especificamente a física, como modelo.
O fato de que o marxismo-leninismo assim chamado ortodoxo produziu uma epistemologia dessa mesma jaez – a “teoria do reflexo” – foi elidido para fins estruturalistas. Em comum com o neoempirismo, a teoria do reflexo mantem o discurso de ser a prática exitosa do descarte de qualquer problematização filosófica do objeto em si do Saber.
Se os estruturalismos problematizaram precisamente esse discurso, eles distorceram a visibilidade de sua origem, e prejudicam sempre a compreensão do que realmente está ocorrendo. Não é a toa que todas as suas espantosas deduções básicas - como a definição de todo Estado como totalitarismo, de todo Saber como dominação do universal, e de toda filosofia grega como platonismo - se revela totalmente funcional ao neoliberalismo econômico em termos de um aparato de dominação midiático-cultural. Mas essas premissas são comuns ao que o estruturalismo critica, o funcionalismo dos inícios do século XX.
Ora, ao produzir a partir dessa distorção, a exigência "arqueológica" do Saber, os estruturalismos puderam apenas criticar eficazmente, como se fossem ciências humanas, filosofias tais como a de Heidegger e Husserl ou ainda Sartre.
Os estruturalismos encetaram a partir daí as tentativas de cumprir a exigência científica, mas de fato ela já estava melhor evidenciada e desenvolvida pelas ciências humanas empíricas, a despeito de seus projetos não contarem como realidade histórica na mente dos neoempiristas que prosseguiram como se ainda se estivesse nos tempos positivistas, em que decisões quanto a isso ainda podiam ter sentido na anterioridade do trabalho de campo como metodologia intrínseca.
Ainda hoje vemos Changeaux repetir o que constataremos ser a concepção neoempirista, supondo que as ciências humanas - porém de fato naturalizadas - vão poder responder à necessidade de sua generalização objetivista-universal em ética. A exigência de universalidade porém é o que está confrontada pelo próprio trabalho de campo empírico, portanto ao contrário do que pensavam também os estruturalistas.
O importante nesse ponto é então ressaltar em que consiste a exigência arqueológica e como se construiu o paradigma neoempirista de sua abstração - posto que por outro lado, nada mais havia desde princípios de século XX que pudesse manter o positivismo nos moldes oitocentistas. Assim, este é um exame de primordial importância na atualidade.
Mas como já vimos ao longo deste estudo (desde o Blog Geoegologia), não podemos aceitar que a arqueologia do saber foucaultiana tenha eficazmente instrumentalizado o que a exigência autenticamente põe na epistemologia contemporânea, a saber, o que o pós-modernismo teórico tem tematizado como a heterogeneidade ou intotalização do campo, impossibilidade do objeto ideal e então essa é a exigência da efetividade.
Podemos ressaltá-la, portanto, mais oportunamente confrontando-a com o enunciado de sua anulação como documento histórico da inserção neoempirista. Isto é, como aquilo que depreendemos que os neoempiristas, ao se auto-designarem como tal, instruem nos termos de seu imperativo como o que não permitem que seja questionável.
Para exemplificação que, creio eu, se torna um instrumento prático da demonstração do que se trata, vejamos o trecho em que Carl Hempel, num texto que integra o volume organizado por S. Morgensener, “Explicação científica em filosofia da ciência”, apresenta um dos dois “motivos mais importantes para que o homem se desse a esforços no campo da Ciência”.
O outro sendo “de caráter prático”, porque “o homem procura constantemente, melhorar a posição estratégica em que se situa face ao mundo onde vive...”, quanto a este, extrapolando a ordem prática, “reside simplesmente em sua curiosidade intelectual, seu desejo profundo e persistente de chegar a conhecer e compreender o mundo que habita”.
Aqui, portanto, estamos no âmbito de uma explicação, sem notar que esta apresenta antes o problema do conhecimento interposto à ordem psíquica, que é o de maior magnitude – o da “vontade de saber”.
Ou seja, na deriva que em vez de imanente a elas mesmas como humanities, foi produzida pelo neoempirismo como um discurso de unificação das ciências promovido em torno da concepção das ciências naturais e especificamente a física, como modelo.
O fato de que o marxismo-leninismo assim chamado ortodoxo produziu uma epistemologia dessa mesma jaez – a “teoria do reflexo” – foi elidido para fins estruturalistas. Em comum com o neoempirismo, a teoria do reflexo mantem o discurso de ser a prática exitosa do descarte de qualquer problematização filosófica do objeto em si do Saber.
Se os estruturalismos problematizaram precisamente esse discurso, eles distorceram a visibilidade de sua origem, e prejudicam sempre a compreensão do que realmente está ocorrendo. Não é a toa que todas as suas espantosas deduções básicas - como a definição de todo Estado como totalitarismo, de todo Saber como dominação do universal, e de toda filosofia grega como platonismo - se revela totalmente funcional ao neoliberalismo econômico em termos de um aparato de dominação midiático-cultural. Mas essas premissas são comuns ao que o estruturalismo critica, o funcionalismo dos inícios do século XX.
Ora, ao produzir a partir dessa distorção, a exigência "arqueológica" do Saber, os estruturalismos puderam apenas criticar eficazmente, como se fossem ciências humanas, filosofias tais como a de Heidegger e Husserl ou ainda Sartre.
Os estruturalismos encetaram a partir daí as tentativas de cumprir a exigência científica, mas de fato ela já estava melhor evidenciada e desenvolvida pelas ciências humanas empíricas, a despeito de seus projetos não contarem como realidade histórica na mente dos neoempiristas que prosseguiram como se ainda se estivesse nos tempos positivistas, em que decisões quanto a isso ainda podiam ter sentido na anterioridade do trabalho de campo como metodologia intrínseca.
Ainda hoje vemos Changeaux repetir o que constataremos ser a concepção neoempirista, supondo que as ciências humanas - porém de fato naturalizadas - vão poder responder à necessidade de sua generalização objetivista-universal em ética. A exigência de universalidade porém é o que está confrontada pelo próprio trabalho de campo empírico, portanto ao contrário do que pensavam também os estruturalistas.
O importante nesse ponto é então ressaltar em que consiste a exigência arqueológica e como se construiu o paradigma neoempirista de sua abstração - posto que por outro lado, nada mais havia desde princípios de século XX que pudesse manter o positivismo nos moldes oitocentistas. Assim, este é um exame de primordial importância na atualidade.
Mas como já vimos ao longo deste estudo (desde o Blog Geoegologia), não podemos aceitar que a arqueologia do saber foucaultiana tenha eficazmente instrumentalizado o que a exigência autenticamente põe na epistemologia contemporânea, a saber, o que o pós-modernismo teórico tem tematizado como a heterogeneidade ou intotalização do campo, impossibilidade do objeto ideal e então essa é a exigência da efetividade.
Podemos ressaltá-la, portanto, mais oportunamente confrontando-a com o enunciado de sua anulação como documento histórico da inserção neoempirista. Isto é, como aquilo que depreendemos que os neoempiristas, ao se auto-designarem como tal, instruem nos termos de seu imperativo como o que não permitem que seja questionável.
Para exemplificação que, creio eu, se torna um instrumento prático da demonstração do que se trata, vejamos o trecho em que Carl Hempel, num texto que integra o volume organizado por S. Morgensener, “Explicação científica em filosofia da ciência”, apresenta um dos dois “motivos mais importantes para que o homem se desse a esforços no campo da Ciência”.
O outro sendo “de caráter prático”, porque “o homem procura constantemente, melhorar a posição estratégica em que se situa face ao mundo onde vive...”, quanto a este, extrapolando a ordem prática, “reside simplesmente em sua curiosidade intelectual, seu desejo profundo e persistente de chegar a conhecer e compreender o mundo que habita”.
Aqui, portanto, estamos no âmbito de uma explicação, sem notar que esta apresenta antes o problema do conhecimento interposto à ordem psíquica, que é o de maior magnitude – o da “vontade de saber”.
Sempre o homem quis saber? Como ele veio a querer saber? Desde quando,
em se tratando do desenvolvimento a partir da primeira infância, desponta a
vontade de saber e, em correlação com essa pergunta: é ela invariável ou, pelo
contrário, é um dos constituintes da variação das personalidades ou das
culturas.
Essa
indagação procede na medida em que nem sempre se poderia demonstrar que o
mito atua em algumas sociedades não-moderno-ocidentais como algo em função
de que há enunciado de separação do que é saber objetivo e do que é imaginação
ou fantasia. O mito por vezes - como aqueles que Eliade examinou de sociedades
onde não há casta sacerdotal discernível - funciona em um tempo além do
prático onde essa separação é de ordinário uso e somente onde ela seria
pensável.
Assim já foi colocado à psicanálise a crítica de que a vontade de saber da
criança sobre a sexualidade, o que desencadeia o Édipo na "fase fálica", é uma
conceituação que depende de um critério de saber na verdade não universal,
mas tardio ocidental e propriamente científico. Visto que se as demais sociedades não produziram ciência, então elas fixaram-se em fases anteriores a esta.
Mas assim a resposta psicanalítica não elide a universalidade, apenas escalona as fases de sua constituição. Ora, a pergunta aqui é sobre que é essencial no sentido de ser produtor do outro – a vontade de saber ou
essa variação cultural do critério do saber, inerente a algo mais?
E sobretudo, como a posição da questão vai determinar a polaridade de nada
menos que todo o campo do Saber ele mesmo, na medida em que somente ela
permitirá distinguir de uma maneira determinada o estudo psíquico dos estudos
históricos, sociológicos e culturais?
A questão é instaurada aparentemente pelo nosso próprio envolvimento enquanto o
que colocamos envolve um saber almejado da resposta - mas e se antes é o
saber que está aí, o saber subjacente a um modo que veio a ser da sociedade
atual, o que nos pressiona a perguntar?
Desde os tempos de Nietzsche, inaugurando o pós-positivismo, já se estava bem
cônscio de que entre os dois determinantes colocados por Hempel, em vez de
pressuposição recíproca pode haver, pelo contrário, antagonismo absoluto. O
Saber não é sempre vantajoso em função da estratégia da sobrevivência da
espécie. Os que sabem são geralmente a exceção, não a regra, o considerado perigoso,
não nosso familiar. O processo pelo qual o saber veio a ser a regra e o familiar na modernidade se colocou então primeiro como questão histórico-antropológica, em vez de evidência, devido a não ser a sociedade científica uma constante, mas inversamente uma exceção. E desde os tempos de Nietzsche, o mito já não podendo ser interpretado como uma explicação científica primitiva, tendo inversamente uma lógica simbólica própria.
Nessa época a suposta vantagem por si da ciência como progresso em uníssono com
a produtividade da sociedade industrial já havia sido desmentida como horizonte
de anti-belicismo e harmonização humana possível, em função da nova
concepção de que se tratava de luta de classes e exploração máxima do homem
pelo homem, na concreção imperialista da nação europeia como potência.
É curioso que nesse cenário tenha surgido o neoempirismo - também chamado
neopositivismo, e assim torna-se sempre necessário rever seu programa,
encontrar seu sintoma.
O ponto de vista arqueológico pode então ser visado num contraste ao que Hempel, na sua ingenuidade do sentido autônomo do mito, especifica a partir daí: “Tão forte é essa necessidade de conhecimento e
compreensão que, na ausência de informação factual comprovada, mitos são
frequentemente invocados para responder perguntas acerca do Que e do Porquê dos
fenômenos empíricos. Gradualmente, entretanto, esses mitos cedem lugar a
conceitos e teorias que surgem como frutos da pesquisa científica no campo das
Ciências Naturais, assim como no da Psicologia e no das disciplinas históricas
e sociológicas”.
Ora, seria impossível assegurar comprovação para tal ponto de vista, não
obstante o quão difundido e em função de interesses tão conspícuos sendo essa
difusão nos meios naturalistas, desde a transição ao século XX até agora. Repetindo, não lidamos mais nas ciências humanas não naturalistas, com os mitos em termos de um mesmo “discurso” que o da linguagem
científica, ainda que fosse para reduzir sua leitura em termos do que seriam os
seus fins – enunciar a verdade.
Pois, é a concepção mesma de verdade (não científica) que o mito
alternativamente constrói, em vez de supor que possa ser pre-existente
construída sem no entanto evidenciar-se onde e como, e ao nos aproximar do
discurso em termos de construção, vemos que não se trata nossa tarefa de
averiguar como é que um dado x foi construído, posto que seria uma petição de
princípio procurar esse dado sem saber se era ele o que devia ser
construído e lá constar como o produzido invariável.
Naquele blog Geoegologia examinamos com Beattie e outros pesquisadores em
humanities a emergência de uma concepção do simbólico que embora não
lacaniana já implicava a independência de sua manifestação nas culturas
não moderno-ocidentais em relação ao que o positivismo fez derivar como
princípio universal às ciências, do que antes fora tarefa da metafísica
estabelecer, ainda que o positivismo suponha que essa derivação implica mudança
de natureza do discurso em relação ao da metafísica.
Eu não creio que realmente seja o mesmo discurso - inversamente ao que
acreditavam Heidegger e Derrida. Pois, como poderia ser o mesmo discurso, se a
metafísica platônica e aristotélica proíbe que haja ciência do fato
empírico, e pelo contrário é a observação e verificação empírica
que embasa toda epistemologia empirista e neoempirista? Mas isso não
significa que transposto a dogma, para o neoempirismo não seja a
mesma aporia do universal.
A qual então se torna algo a ser posto na categoria do problemático, pois a
própria ciência empírica contemporânea não precisaria induzir a esse
dogmatismo - como vimos nas humanities. Por outro lado, nas humanities o simbólico independente não resulta
como em Lacan, num sócio-evolucionismo qualquer, pelo contrário, o
inviabiliza como vimos em Margaret Mead.
Além
disso, devemos notar que por na categoria de mito o que é simplesmente
erro refutado depois - mesmo que tenha sido suposto como científico -
é uma prática anti-histórica e implica desconhecer a estruturação do
discurso, o que para o próprio neoempirismo vimos não ser desejável. Exceto na polissemia do termo, em que mito significa apenas ficção.
Piaget, que não se diz neompirista, na verdade faz isso, ao supor que a
psicologia nascente em inícios do século XIX fosse a origem da fenomenologia
como espiritualismo anticientífico.
Na verdade, desde Biran ela se acreditava estritamente científica e o
expressava sem dúvida, ainda que seus resultados não pudessem ser aceitos como
tais, isto é, corretos, desde o positivismo em diante por motivos que vão
variar conforme varia a concepção do que é cientificamente demonstrável desde
aí até agora e ainda conforme a multiplicidade teórica inerente ao campo. Ou seja, a noção de ciência também não é constante, mas variável.
II - A
epistemologia não-arqueológica: neoempirismo e naturalismo
a)
Ao encaminhar o neoempirismo emergente em termos de sintoma, a partir da
estranheza de sua posição no pós-positivismo uma vez que ele não propriamente
responde a todo cenário crítico e culturalista do seu presente, mas vai estruturar-se em torno
de toda possível simples anulação deste, uma linha de problematização que
ligasse a legalidade fenomênica e a legalidade jurídica obteria uma validação
em termos de pesquisa profícua.
Contudo,
é exatamente nesse ponto que podemos com proveito esclarecer a posição
histórica de Hempel e Nagel como protagonistas de já um momento ulterior. Eles
são habitualmente associados ao neoempirismo oriundo do Círculo de Viena, mas
na verdade suas posições encontram-se radicalizadas em relação ao que havia
sido a motivação do Círculo enquanto provisão de uma visão científica do mundo
e restrição à linguagem do problema da Verdade enquanto científica ou factual.
Por isso, convém a meu ver designar “naturalismo” à corrente de Hempel e
Nagel, tendo predominância nos anos quarenta e muito relacionada ao quadro da
pesquisa nos Eua. Desde a segunda metade do século XX o devir dessa tendência
já aportou a uma nova terminologia, sendo conhecida como “escola analítica”.
Enquanto
que, inversamente, o Círculo de Viena que instaura o
"neoempirismo" se inicia bem no começo do século XX. Na
prática, o que estamos chamando "naturalismo" se crê uma
continuação em total conformidade ao Círculo, mas de fato há mudanças
assinaláveis. Quanto à escola analítica, é uma terminologia que pode
demarca estrategicamente a produção de toda essa tendência quando de sua
migração aos Eua devido ao cenário da guerra e perseguição nazista na
Europa.
Um outro fator importante quanto à terminologia, é que sua origem como
aglutinação vienense do que se quis como nada menos que a base de toda
cientificidade naquela época atuante e depois produzindo-se nos Eua, hoje em
dia é na verdade associada ao pensamento empirista anglo-saxão de Locke e
Hume, e portanto à teoria inglesa. Assim o Círculo de Viena é hoje associado à escola analítica que tem expressão ampla na Inglaterra, e ao "naturalismo" mais relacionado ao pensamento norte-americano. Contudo, devemos lembrar que também a pesquisa empírica na sociologia é geralmente mais importante nestes dois países, tendo já um histórico memorável com o casal Webb e Barbara Wootton na Inglaterra, e a Escola de Chicago, de R. Park, nos Eua. É esta vertente da pesquisa empírica - que tem habitualmente interesse nas questões de marginalização, classe, mudança e conflito social - a corrente que aqui estaremos valorizando, mais à frente sendo desenvolvido o tema.
Em contrapartida, o que examinamos anteriormente de Habbermas e o
tradicionalismo hermenêutico ou dito crítico ficou tipicamente a teoria
alemã, enquanto os estruturalismos e seu pós estão geralmente
designados teoria francesa.
Nosso exame do neoempirismo estará baseando-se amplamente no excelente estudo
de Robert Gorman (A visão dual) que problematiza precisamente a questão das
humanities, criticando a falácia dual da fenomenologia que as quer reduzir
a um único parâmetro da consciência ao mesmo tempo objetividade. Mas também
utilizando-nos de Bogomólov ("a filosofia americana do século XX")
b)
A questão do Círculo de Viena como tendência original do neoempirismo de
inícios do século XX cujo filósofo fora o jovem Wittegenstein, era a do Sentido
da proposição enquanto algo definível estritamente em função do seu valor de
verdade.
Ao passo que esse empreendimento foi se tornando sempre menos possibilitado
pela realização teórica, desde o fracasso inicial do “verificacionismo”
limitante do valor de verdade ao fato verificável empiricamente, chega-se por
um lado à pragmática de Morris como assinalação da exaustão do sintaticismo e
semanticismo subsequentes àquele primeiro fracasso, e por outro lado ao segundo
Wittgenstein.
Ao contrário de si mesmo quando jovem e crente na evidenciação lógica do valor
de verdade proposicional universal, o Wittgenstein maduro criou a teoria
dos "jogos de linguagem" que sendo múltiplos e irredutíveis uns
aos outros, rompem irreversivelmente com qualquer possibilidade
"naturalista" – em termos de uma todo-objetividade que seria natureza
determinística homogênea a todos os fenômenos inclusive culturais e que se
espelharia no modo de ser universal da linguagem. Agora Wittgenstein se tornava
portanto inconciliável com o que prosseguiu em termos dos esforços
do Círculo. Ele de fato estará sendo referencial ao parâmetro
pós-moderno em epistemologia, como se vê em Lyotard ("O
pós-moderno").
A conversão do segundo ou maduro Wittgenstein, vai sendo construída como sua obra correndo
paralelamente à generalização nos meios científicos da verdade quântica que
assinala irreversivelmente a impossibilidade do determinismo laplaceano, uma
vez que a indeterminação do salto quântico – impossibilidade de se prever o
rumo da partícula – se demonstrou não como um estado provisório do
conhecimento, e sim como algo inerente à objetividade da natureza.
Essa generalização foi algo difícil por razões compreensíveis e tanto
mais que enfrentou a oposição veemente do próprio Einstein. Requer na verdade o
espaço de duas décadas, entre os anos vinte e quarenta.
Recentemente (2012) anunciou-se com grande estardalhaço a descoberta da
partícula condutora do percurso eletrônico, mas não creio que isso implique a
explicação do rumo original do movimento, ao modo de alguma "partícula
Deus" como expressou a mídia, e sim só o que desde os anos
oitenta se estava esperando como a explicação do modo como o percurso
aleatório, uma vez escolhido, é realizado. Do contrário, teria havido um
estardalhaço bem maior porque se trataria de um verdadeira revolução
epistemológica.
Por incrível que pareça, não obtive bom esclarecimento sobre isso até agora. Em
todo caso, procedemos aqui a leitura daquele cenário quântico em que como se lê
em "A parte e o todo" de Heisemberg, tratou-se de impugnar que a
incerteza pudesse ser algum estado provisório do conhecimento, em vez do novo
parâmetro da física.
A questão aqui, como assinalou A. Molles ("A criação científica"), é
que não basta pressupor uma inteligência capaz de “calcular as seis
variáveis que definem cada átomo particular de todo o Universo, para
armazená-los em uma memória qualquer, pois nenhuma 'codificação' dos
resultados pode efetuar-se, salvo após uma exploração que deve ser no caso
instantânea, e ele deveria efetuar o cálculo de todas as suas interações
fazendo-as intervir simultaneamente”.
A lógica elementar exigiria no sistema de cálculos um número de elementos
superior ao dos elementos explorados, sendo preciso no mínimo um elemento,
portanto um átomo, compreendido no sentido etimológico de ser indivisível, para
representar a posição de um átomo.
Seria conforme Molles o único modo de restituir a visão determinista da
ciência positivista do século XIX, antes da mecânica quântica, o que para ele
obviamente se demonstra inviável.
Assim parece surpreendente que em vez de uma relativização do objetivismo científico
do Círculo a partir da generalização da paradoxal verdade quântica afirmando a
incerteza como novo princípio epistêmico, tenha ocorrido a radicalização
“naturalista”. O fato correspondeu no entanto a intuitos tão influentes na
época quanto possam ter sido os de Einstein.
Robert Gorman esclarece bem melhor que Bogomólov o que estava em jogo nessa
radicalização "naturalista", a saber, uma defesa fanática do
determinismo a ponto de persistir na negação de que a teoria do quantum possa
provar o que os naturalistas designaram “possibilidade absoluta”, na
expressão de Robert Gorman, “a noção de que existem fenômenos para os quais
não há quaisquer condições”.
Por isso Gorman nos permite apreender o paradoxo histórico pelo qual essa
oposição epistemológica de determinismo e intedeterminismo é a mais básica do
nosso tempo, atravessando domínios opostos por outras formas de contraposição,
especialmente a que os comentadores costumam estabelecer entre a defesa
naturalista do objetivismo em questões de ciências humanas e a posição inversa
pela qual quanto a estas não podem ser predeterminadas pela natureza material e
são de ordem independente, sendo aquilo em que Gorman está particularmente
interessado como assunto do seu livro.
Este versa sobre o paradoxo mesmo que estamos tratando aqui,
uma vez que sua observação da oposição radical entre as duas posições
cristalizadas respectivamente por naturalistas e fenomenólogos o conduz a
tratá-la como ilusória. Justamente porque ambas são deterministas, apenas a
segunda lidando com o determinismo das leis universais da consciência em vez
das leis universais da natureza, mas tanto consciência como natureza sendo
rigorosamente objetivas. Assim, visão dual significa a falácia da fenomenologia
que se diz diversa do objetivismo, mas está defendendo o mesmo paradigma de
objetividade. Gorman trata assim porém a tentativa explícita de Alfred Schutz construir uma ponte entre ambas as perspectivas. Isso seria consequente com a ambiguidade da fenomenologia, mas Gorman supõe que esta é criticável, em nome da ontologia existencial de Heidegger. Não me parece que a diferença seja tão preponderante. A crítica de Gorman e sua apresentação de cada uma das posições, resulta mais interessante do que a exposição do que ele mesmo defende. Essas posições, não obstante a aplicação específica da fenomenologia, na verdade são basicamente as do relativismo cultural nas ciências humanas e do objetivismo universalista oriundo do Círculo de Viena. Podemos trata-las grosso modo como entre culturalismo e naturalismo.
Ao
longo do trecho subsequente estaremos examinando minuciosamente o discurso
do Circulo de Viena e a construção do conflito assim como constatado em Gorman,
de modo que depois possamos desenvolver o que ele trata em termos da inserção
das humanities.
====
Robert
Gorman referenciou oportunamente a fórmula de Ralph Perry para o
"naturalismo" de Hempel e Nagel como “a 'generalização'
filosófica' da ciência”, e a meu ver este é um ponto importante na
diferenciação dessa corrente com relação ao "neoempirismo" do Círculo
de Viena de que o "naturalismo" é um desdobramento, como vimos acima.
Isso na medida em que quanto ao neompirismo, havia representado a persistência
da reserva anti-filosófica do cientificismo positivista comteano, e por aí ser
chamado também neopositivismo.
Um segundo fator de diferenciação que poderíamos estipular aqui é propriamente
epistemológico.
O neoempirismo estrito e o positivismo foram anti-filosóficos enquanto
indutivistas na acepção do experimental como fator básico da ciência moderna
– por aí a base verificacionista por um lado, e sua aplicação, por outro,
como princípio metodológico da seleção do que tem sentido na linguagem.
Frente a essa premissa verificacionista-cientificista do sentido, tudo o mais
na linguagem poderia ser descartado como o que não o tem, e assim a famosa
fórmula do jovem Wittgenstein no Tractatus logico-philosophicus (aforismo
4.024): “Compreender uma proposição significa saber aquilo que é o caso quando
ela é verdadeira”, ou ainda, “O sentido de uma questão é seu método de
verificação”.
As
proposições filosófico-metafísicas ou religiosas caem assim na conta de
sem-sentido, porque não podemos verificar se o referente delas - por exemplo,
Deus - se comporta ou não como predizem.
Sobre isso, o “Manifesto do círculo de Viena” assinado por Hahn, Neurath
e Carnap, afirma enfaticamente a indução – ou procedimento de generalização do
particular – como base da verificação empírica, o que é a postura comum do
moderno cientificismo desde Galileu.
É porém na verificação que se encontra a ênfase do que designa sua “teoria
do conhecimento”, a qual vai se estabelecer na referência à "teoria da
constituição", na obra de Carnap e como que fundada sobre o dado a ponto
de configurar a referência nada menos que a suposta refutação de toda
objeção a essa teoria conforme a qual a ciência pode ser unificada pela
construção de uma árvore genealógica do que seriam todos os seus
conceitos constitutivos.
A refutação seria pois à objeção “metafísica” de que restariam inevitavelmente
questões reais, mas insolúveis, as quais ainda assim geram pressupostos –
portanto independentes do dado – que orientam sub-repticiamente as próprias
ciências na sua busca do dado, o fenômeno real.
A refutação da possível objeção metafisica é porém apenas a
reafirmação da teoria: “essa objeção é refutada do seguinte modo: a teoria
da constituição prova a possibilidade de um sistema constitutivo que repousa
unicamente sobre o dado e que conduz em todo caso a cada um dos conceitos da
ciência”.
O situamento do "verificacionismo" na obra de Carnap em função da
"teoria da constituição" está coerente com a proveniência princípio
de século do Manifesto – assim como a junção ainda possível de Mach e Einstein
como uma mesma perspectiva epistemológica.
Na verdade, a obra referenciada de Carnap sendo “A construção lógica do
mundo”, costuma hoje ser lembrada como um dos piores livros já escritos ou
um monstro lógico – conforme assinala o texto de Bouverese ("A teoria e
a observação na filosofia das ciências do positivismo lógico" em
Chatelet, História da filosofia, v. VIII).
A evolução da teoria da relatividade e da mecânica quântica logo atuou como um
divisor de águas sobre isso que pareceu a princípio a homogeneidade afinal
conquistada da ciência.
Ronald Clark, o biógrafo de Einstein, relata o encontro deste com Mach.
Einstein, satisfeito por poder confrontar a Mach com a possibilidade de
uma teoria atômica realmente apta a explicar matematicamente os fenômenos e não
apenas manter a ciência na base empirista de uma coleção de fatos, se sentiu
triunfante ao receber de Mach a resposta de que se fosse assim, se a teoria
atômica viesse a ser confirmada, ele naturalmente aceitaria a evidência de um
sistema explicativo de base matemática e não somente empírica. Assim vemos que inversamente ao que muitos acreditam, não há continuidade entre o atomismo científico, que só se estabeleceu desde o século XX, e a afirmação progressiva das ciências "empíricas" desde Galileu em diante. O motivo é que o atomismo científico é um matematicismo, ao invés de um dado como coisa. Porém as provas laboratoriais da mecânica quântica, se bem que uma teoria construída matematicamente, foram avessas ao racionalismo einsteiniano e repuseram o referencial do dado, o que é coerente com o princípio empirista da natureza material.
O encontro, em 1911, é portanto anterior à redação do Manifesto em 1929, mas
não era ainda obstáculo à auto-posição do “Círculo vienense da concepção
científica do mundo” em colaboração com a "associação Ernest Mach"
e à inclusão de Einstein na lista anexa dos “principais representantes da
concepção científica do mundo” assim como Russel e Wittgenstein.
Registra o Manifesto que a generalização do atomismo representou uma refutação
do ponto de vista machiano a propósito, mas sustenta-se que sobre pontos
essenciais sua concepção teria permanecido positiva. Junto à menção de Mach
nesse status importante, alguns outros nomes são citados no interior do texto,
como Popper e Brentano enquanto lógico.
Reichenbach, autor do “The rise of scientific philosophy” cujo texto
muito se assemelha ao teor do "manifesto" ainda que a inclusão do
termo "filosofia" seja inovador, é apenas citado na lista anexa dos “autores
próximos ao Círculo” – nem entre os principais representantes, nem entre os
arrolados como membros, à exemplo de Gödel, Feigl, Ph. Frank, Neurath e
outros, se bem que haja uma ligeira alusão a ele no interior do texto.
O problema real do Manifesto parece-me residir na junção inexplicada de por um
lado a aposta absoluta no dado, e por outro lado a redução analítica da lógica
e da matemática, isto é, recusando ora a solução kantiana da síntese a priori,
ora o próprio empirismo anterior como o de Mill que pretendia derivar
experimental e indutivamente a matemática e a lógica.
A questão nem é que esse empirismo anterior em geral e nomeadamente Hume em
particular – como também o iluminismo, o positivismo, e retrogradando até a
filosofia antiga, o epicurismo e a sofística – são expressos entre as
linhas que integrariam as perspectivas do Manifesto em história das ciências.
Mas sim que a aposta absoluta no dado implica a total exclusão da metafísica
tanto quanto de algum “reino das ideias” que peremptoriamente se afirma
inexistente, mas a análise lógica e a proposta russel-wittgensteiniana da
redução tautológica da matemática não são obviamente nada além desse reino que
sendo o negado por aquela posição anterior, era também o que acarretava a busca
no mundo empírico de alguma forma de contornar o seu caráter puramente formal.
Assim o vínculo entre as duas coisas é apresentado como a mera afirmação de que
o real é todo-inteligível, e de que não há problemas insolúveis, mas
como se contrapôs ao manifesto, de fato essa não é uma afirmação
empírica. Provavelmente podemos afirmar que Reichembach, tanto quanto
o "naturalismo", surgem como um novo cenário em que não se querendo
abdicar da premissa vienense de todo-inteligibilidade, se equaciona porém
que ela é filosófica por ser epistemológica, não imediatamente "científica".
Não há contradição no fato de Wittgenstein enquanto filósofo ser um referencial
do neoempirismo de Viena enquanto cientificismo anti-filosófico na medida em
que como se sabe sobejamente, fora ele o filósofo do fim da filosofia
(=metafísica), colocando do mesmo modo que qualquer positivista o faria,
primeiro as proposições científicas como as dotadas da propriedade de serem
verificadas – negadas ou confirmadas - pelos fatos, e segundo restringindo o
haver do sentido na linguagem a essa propriedade.
O epíteto “filosofia científica" chegou a ser usado pelo Círculo,
como também depois, por Reinchenbach, mas toda a ênfase dos vienenses estava na
cientificidade, não na "visão de mundo" que no entanto, o objetivo da
escola era mostrar que também a ciência podia prover. O texto realmente envereda
por uma análise da metafísica como pregressa filosofia, em termos dessa
conexão ao tema da "visão de mundo".
Ocorre efetivamente uma abrangência muito ampla do que se designa "concepção
científica do mundo" – algo que abrange nomeadamente a solução de
problemas em nível público e privado, político e existencial; a plataforma de
uma unificação da inteira humanidade; e aquilo que embasa o tempo do presente
histórico. Tudo isso seria resolúvel, em princípio, pelas ciências realmente
existentes. O princípio dessa resolubilidade é portanto filosófico, mas
ela mesma, essencialmente não o pode ser.
A “filosofia” científica não é definida como a concepção do mundo
apresentada, e sim como uma tarefa específica, a da clarificação dos problemas
filosóficos tradicionais pela análise lógica da linguagem, como expressamente
se reporta à proposta de Russel. O que é suposto torná-los reduzidos ora a “scheinprobleme” (falso-problema),
ora a problemas solúveis por via científica-experimental.
A hostilidade é voltada inteiramente contra a filosofia “metafísica” ou seja,
tudo o que integra a história da filosofia propriamente dita além do que nela
pode ser teleologicamente reportado como um rudimento desse resultado.
A
virulência anti-metafísica do texto poderia levar a indagar das
razões dessa ênfase retórica hostil numa época que, vista de uma perspectiva
habitual, pareceria já suficientemente “modernizada”, inteiramente pós-metafísica. Algo tão ultrapassado não teria porque estar sendo tão polemicamente visado na atualidade. Tendo havido a
continuidade do positivismo comteano e ainda podendo-se manter o mecanicismo de
Helmholtz expressamente citado, antes portanto de Scherrington e a reversão
desse parâmetro pela concepção centralista do cérebro.
E se a época coincide com o pós-positivismo iniciando-se na transição ao século
XX, tendo sido o positivismo um cientificismo objetivo e mecanicista, que havia triunfado
sobre toda concepção romântica ou idealista desde meados do século XIX, o
característico agora não é o retorno do espiritualismo sem que nele se observe
a trajetória de uma recusa em filosofia, justamente da “metafísica” - ao menos no sentido tradicional do termo, como teoria idealista do Saber.
Mas
o que é menos conhecido, é que a despeito do Círculo de Viena, esse espiritualismo aporta a um
anti-cientificismo cujo alvo foi no entanto nomeadamente a “metafísica” suposta
suporte de todo objetivismo
possível.
Bérgson, Husserl e Heidegger colheram os frutos da viragem de um neoepiritualismo pós-positivista, que
desejava fornecer uma interpretação sua da evolução e da ciência, a um
anti-cientificismo cerrado cujo intuito era desfazer como meramente
aparente a irredutibilidade de empirismo e racionalismo para assism
caracterizar a ambos como causa da dominação capitalista ou alienação técnica
do humano.
Em
todo caso, vemos que não há defesa da metafísica a sério nessa época, entre os
anos vinte e trinta, mesmo no campo da filosofia normal, isto é, não a do
Círculo, designada “científica”, mas a que se considera continuação da história
da filosofia.
Mas se prestarmos ouvidos ao que hoje tem sido mais enfatizado em
problematizações não de história das ciências, e sim de história das ideias ou
crítica da cultura, como em Löwi (Romantismo e messianismo") ou em textos
revisitados de Max Weber, assim como à própria história política, constatamos que
se trata de um contexto de alta reação tradicionalista ao que haviam sido as
conquistas da sociedade liberal antes do rise do monopolismo de cartel e neocolonialismo.
Além disso, um texto autobiográfico à exemplo do “Sabedoria e Ilusões da
Filosofia”, de Piaget, fornece o panorama histórico do conservantismo
universitário ainda conspícuo em termos de expressões do
"mandarinato" acadêmico ainda vigente.
A crítica da exploração capitalística nessa época se tornou uma recusa do
liberalismo, a partir da premissa de que o segundo devia ser apenas o efeito do
primeiro, em vez de se poder crer na sua autonomia propriamente política relativamente àquele, e
assim entre ambos estava em causa o destino da cientificidade. Desde Comte
definida em todo caso como o que assegurava o meio termo histórico da realidade
presente estruturada em função de todos os três - capitalismo industrial, liberalismo político e ciência moderna - como seus elementos essenciais.
A posição do Círculo se torna então mais compreensível. Ela se expressa como defesa do
Socialismo não como um regime político, porém, e sim como uma engenharia
social, um derivado da ciência social, e é nesse ponto que vemos defrontar-se
com as ciências humanas reais. Pois, como demonstrou Robert Gorman, desde o
pós-positivismo estas não aceitam o papel de técnicos da sociedade, mas
o mérito de Gorman está em salientar claramente que não foi a fenomenologia que
o recusou - bem inversamente, e sim o desenvolvimento dos estudos
empíricos, que descobriram a irredutibilidade cultural como algo inultrapassável.
Nesta via, a literatura que versa sobre a história das ciências humanas e
especialmente da Sociologia confirma de modo cabal o que parece-me o argumento
de Gorman. Ao desenvolver a perspectiva neoempirista com maior minúcia, podemos
com maior base apreender o que em humanities reforça o argumento crítico a tal perspectiva.
A retórica de ataque à metafísica constante do Manifesto do Círculo de Viena é ademais uma
radicalização em relação ao próprio Comte como pai do
"positivismo".
Comte mantinha a filosofia sinônimo de metafísica, entre o primeiro
estágio da inteligência humana designado "religioso", e o último
estado designado "científico", este o presente teleológico do
homem desde sua concreção no Ocidente industrializado.
Nessa lei dos três estágios comteana, a filosofia é um avanço da inteligência
em relação à origem, mas o verdadeiro progresso só ocorre pela superação da
metafísica, com as ciências empíricas.
O Manifesto neoempirista ou "positivismo lógico" prefere
alinhar-se com o primeiro estágio, traduzindo-o porém em termos das originárias
crenças mágicas “livres de toda teologia”.
Quanto
a "teologia" significando o mesmo que a metafísica, na medida em que
aquelas crenças equivaleriam a uma visão unitária deste-mundo-aqui,
terra-a-terra, sem laivo de explicação além-mundo ao mesmo tempo fantasiosa e
pretendendo-se fundada como se reprova à metafísica ter sido.
Vimos que essa é uma premissa destoante do que estudamos como a ordem do simbólico
na antropologia social. À Geoegologia importa, contudo, não parar aí, e
mostrar que realmente existe uma vocação empírica nas sociedades igualitárias
quanto a status, posto que nelas o tempo mítico não limita o devir do tempo
cotidiano.
Mas desde essa vocação empírica à ciência ocidental há evidentemente
irredutibilidades consideráveis, a perspectiva universal estritamente objetiva sendo só da ciência ocidental. E o fato político da apropriação teleológica
da ciência vem como algo que não poderia estar demonstrado apenas pela premissa
de uma mentalidade empírica.
O texto de Reinchenbach é quanto a isso, se não menos impiedosamente crítico da
metafísica, menos radical ao admitir uma certa justificativa da metafísica em
termos de reflexo das limitações do saber antes do estágio atual da
ciência.
O "Manifesto" vienense chega a se tornar ambíguo e inconsistente
nessa radicalidade. A metafísica é: a) ao mesmo tempo a história da filosofia e
a história dos erros suscitados pela pretensão de uma verdade independente do
dado, mas como tal esses erros são de ordem lógica, como proposições mal
ou só aparentemente encadeadas; b) expressões de “um sentimento da vida”;
e c) o que ainda está por ser explicado quanto à sua causa, por exemplo
recorrendo-se ao inconsciente freudiano ou a Marx (superestrutura ideológica).
Mas nem mesmo como gênero de expressão de “um sentimento da vida”, a
metafísica e/ou teologia teria algum sentido, posto que para isso já existiriam
os meios “adequados” – a poesia e a música.
A metafísica, pois, existe e não existe, é algo referenciável em sua mola
histórica e meramente aparente como um engano de linguagem posto não ser outra
coisa que esses outros meios de declinação de tudo o que ela pode ser suposta
declinar.
A história da filosofia não tem que ser explicada como se existisse ainda que
seja algo a ser clarificado - pois não sabemos em que poderia consistir o vazio
total, a ausência, do sentido.
Não há a questão histórica-efetiva da filosofia, o que é elidido formalmente
– numa acepção dessa palavra a que só a atualidade poderia conceder toda a
magnitude – pelo ato de anulação de si como discurso, já que sua atuação
é autenticamente só a da música e da poesia.
O discurso (gênero de linguagem) da filosofia passa a ser o conteúdo mesmo
do engano sobre si como existente, é esse discurso o que não existe.
A partir daqui, examinamos como essa incongruência do Manifesto se relaciona à
sua estruturação na conversão lógica do positivismo.
18 e 19/05
Na
posição característica do Círculo de Viena, as proposições metafísicas ou
filosóficas seriam todas as que não podem ser verificadas ou em princípio
possivelmente negadas por fatos, e assim para o jovem Wittgenstein elas são
rigorosamente destituídas de sentido. Além desta possibilidade de destituição,
há a que se prende à da impossibilidade lógica.
Reichenbach que como assinalei expressou, inversamente à apresentação do
Manifesto vienense, uma positividade da existência da filosofia numa época
histórica passada – anterior ao presente da ciência – datou a emergência do
presente a partir da revolução industrial do século XIX. Ele claramente atribui
aos fenômenos sociais relativos à industrialização o papel ordenador do
pensamento novo e dos procedimentos científicos que o condicionam.
Ora, aqui a análise da linguagem se torna um fator preponderante dentro de uma
concepção de produção intelectual cuja novidade principal seria o deslocamento
do indivíduo criador pelo processo de trabalho coletivo.
A divisão do trabalho no interior da coletividade iria determinar pesquisadores
empíricos cujas tarefas difeririam daquelas dos analistas da linguagem.
Mas a concepção de Reinchenbach a propósito da nova epistemologia
propriamente, é contraditória com a história de que ele mesmo pretende estar
delineando a periodização. Pois, seria a epistemologia do que designa
pensamento “abstrato”, seu texto permitindo assinalar que para ele isso
significa apenas o contrário de um pensamento conceitual-sistemático.
Ou seja, o "pensamento abstrato" é aquele desencadeado pela evidência
da ciência, que por sua vez é inteiramente ordenada pela experiência. Inversamente,
o pensamento filosófico-tradicional ou "sistemático" parte de uma
pseudo-evidência, porque não haurida de um procedimento empírico-científico, e
dela se põe a encadear supostas ilações numa cadeia do mesmo modo supostamente
coerente até considerar completo um sistema da realidade.
Já a epistemologia do abstrato ou empirista teria começado a desenvolver-se no
século XIX por pessoas que rapidamente se ligaram às transformações devidas à
escala industrial da produção e aos resultados do progresso científico hauridos
dos trabalhos de grupos, formando assim uma contra-corrente em relação aos
pensadores da época hoje conhecidos dos manuais de história da filosofia.
Esses pensadores que para Reinchenbach agora apenas simulavam estar
continuando uma tradição de fato morta desde a emergência da sociedade
industrial, em que aquela tradição sistemática não mais obtinha qualquer
vínculo com o conhecimento legitimado e como factual.
Mas a verdade é que o século XIX positivista desconhece a terminologia de
Reichenbach, e o que havia em termos de empirismo epistemológico ou realismo
anti-romântico era, pelo contrário, uma solene indiferença pelo status
ontológico, isto é, verdadeiro em si, do Saber científico, que Reichenbach tem
por certo e indubitável. Na posição original do empirismo ou positivismo, o saber científico é oriundo da indução experimental, assim derivado do dado objetivo, porém conforme às leis do intelecto e do laboratório. Portanto, a realidade do dado independente dessas leis não importa ao empirismo, que não considera que seja comprovável ou definível.
Essa concepção do saber inteiramente legitimado, inversamente ao empirismo original, de Reichenbach, é em que também o Círculo de
Viena se baseia para afirmar que os problemas filosóficos tradicionais não mais
subsistem porque ou foram demonstrados falsos ou foram resolvidos pela ciência,
ou ainda foram reduzidos a problemas resolúveis pela ciência e assim à espera apenas
da resolução científica. Vemos, não obstante, que por científico, ainda no terreno do verificacionismo, não se alterou o correlato empírico.
O traçado da linha do objetivismo do século XIX seria bastante complicado se
adotássemos o parâmetro “abstrato” de Reinchenbach, por que se de Comte e Mill
a Marx e Freud o mesmo rótulo de objetividade é corretamente aplicado, os dois
primeiros são empiristas nesse sentido relativista do termo, e o ater-se à
experiência para eles coloca somente como evidência o fato de que a temos,
desqualificando-se a questão filosófica de se além do mais é real em si,
porquanto impossível de ser resolvida.
Enquanto Marx e Freud não são relativistas nesse sentido e concebem a
experiência como real em si, entendendo porém que isso retira da história da
filosofia como ontologia o referencial da “realidade” incorporado agora aos
seus próprios campos científicos supostos novos, a economia política e a
psicanálise.
O epíteto “Realista” não significa nesse caso uma decisão sobre os universais
como na história da filosofia, mas sim que independente de relativizar-se ou
não, o saber suposto empírico-científico é o conhecimento ou adoção como tal de
algum sistema determinista condicionante dos fenômenos visíveis.
A palavra “abstrato” da terminologia de Reichenbach soa
portanto incompatível com o referencial Realista-Positivista do século
XIX, e desse modo não poderíamos entender Comte, Marx e mesmo Freud
senão como pensadores individuais em vez de típicos representantes de
uma tendência definível.
Por outro lado parecendo forçado excluí-los de uma história intelectual do
século que estivesse interessada precisamente no tipo de mudança desencadeadora
de um pensamento objetivo estritamente cientificista assim como Reinchenbach
designa o seu, como o dos vienenses. Em termos de nova filosofia ou filosofia
científica do século XX, especificada como em continuidade à transformação
capital ocorrida no século anterior.
Reichenbach não deixa de registrar que há um corte entre os dois cenários de séculos.
O período inicial ele descreve como de um progresso que conduziu ao ulterior
designado de “construções puramente teoréticas”.
A filosofia científica, nova e atual, começa com a descoberta da corrente
elétrica, da locomotiva, do gerador elétrico, do rádio, mas seu desdobramento
nessa ulterioridade são as teorias da evolução e da Relatividade. É
claro que o aparato matemático-formal bem século XX oriundo da segunda é o que
está informando o sentido do corte salientado.
Como “filosofia” ora legitimada ele é definido por Reinchenbach em termos de “sub-produto
da pesquisa científica”.
A filosofia dos sistemas ou tradicional sucumbira com Kant. Já assinalei
que para Reinchenbach o que se designa por esse nome a partir daí é apenas um
mal-entendido histórico.
Ao estudarmos a “análise semântica” como a que produziu o neoempirismo, porém,
vemos que o hiato de experiência e formalismo lógico é suposto preenchido
totalmente pelo que Carnap tratou em termos de teoria da constituição, e que
como vimos se especifica com mais clareza como a premissa pela qual,
identificando-se a diferença entre verdade e significado, quanto a este somente
é função da linguagem e especificamente uma função retratadora, mostradora ou
indicativa do referencial de sua definição.
A dificuldade pela qual a definição de um termo (palavra) significado é apenas
a concreção de outros termos associados, ao infinito, se vê cortada pelo
imperativo - logo indemonstrável - de que isto não pode prosseguir
indefinidamente.
Assim é preciso que haja “palavras indefiníveis” como “conceitos
primitivos” que não são tradutíveis por outras palavras e que no
entanto tem significado na coisa que mostramos se solicitados a
defini-los.
Uma vez garantida a evidência exaustiva do significado, a análise semântica se
torna o meio de refutar a filosofia tradicional em função da má formação
tornada conspícua do seu nível enunciativo.
Não é mais a questão de reduzi-la ambiguamente a uma pretensão
ilegitimada de saber e à enunciação de um sentimento de mundo, ou seja,
de defini-la (bem ou mal) por sua vez. Mas sim detectar a lacuna do
significado nos seus enunciados concretos.
O "círculo" – agora na acepção de petição de princípio, não de
agremiação enquanto vienense - lógico aparece aqui nítido, pois só se define a
linguagem como função mostradora ao se excluir do estatuto da significação toda
linguagem que não possa assim ser definida. Mas é somente utilizando a função
mostradora como parâmetro da exclusão que se define o que não cabe na linguagem
enquanto mostradora.
Na prática, se há aplicações felizes – na acepção de felicidade como correlato
do ato de fala que se cumpre - por vezes isso conduz ao inverso do pretendido,
para quem quer que conheça a história da filosofia. A refutação feliz da coisa
em si kantiana é fato, e bem conduzida pelos neoempiristas. Mas a verdade é que
já havia sido feita há muito pelo pós-kantismo que significa o Romantismo como
parâmetro de época, em inícios do século XIX. É claro que se algo é dito
incognoscível, não se pode dizer que existe – pois dizer isso implica de algum
modo conhecer.
Já a expressão “fundamento originário” é realmente bastante vaga. Os
neoempiristas porém se precipitam, ao dizer que se nada mostra de factual,
embora não seja logicamente impossível não tem significado. Pois, ignorando o
gênero de linguagem “filosofia”, ignoram também o fato de que nele o
significado não é dado senão pelo seu contraste a um outro significado que ele
refuta ou supõe refutar e que já está dado histórico-efetivamente como
filosofia.
Assim, como parece-me, ocorre o resultado imprevisto que implica o deslizamento
do suposto fundamento lógico-factual da própria análise semântica: ao colocar
nessa mesma categoria de imostrável os conceitos de “incondicional” ou
“absoluto”, o neompirismo ignora que eles definem exatamente a sua postulação
do significado exaustivamente garantido, porquanto esses conceitos não são
definíveis em si mas somente por seu contraste à postulação que designei
relativizada dos conteúdos do saber e/ou dos significados, pelo que eles são
apenas convencionais ou correntes como o uso que deles se faz, e não supostos
certezas em si mesmos.
A posição do neoempirismo coloca a realidade coisal incondicional - pois
descarta a necessidade filosófico-tradicional de justificar a pretensão de que
ela existe e supõe o fato por si mesmo, presença pura, independente de toda
condição a definir-se. E coloca o saber nesse status de absoluto, enquanto
considerado responder efetivamente, e não apenas prática e convencionalmente,
às dúvidas definidas como dotadas de sentido.
Foi exatamente isso que a destruição heideggeriana da metafísica evidenciou,
para definir o cientificismo como nada mais que uma variante da pretensão
idealista a um Saber absoluto da presença incondicionada. Contudo, já podemos
notar que Heidegger só obtem um referencial válido de sua crítica no
neoempirismo - não naquilo que ele pretendeu ter definido, um campo de saber
unitário que cobrisse de Descartes e Locke a todo positivismo posterior como
ainda desdobramentos da antiga metafísica platônico-aristotélica. Pois,
ignorando a reserva empirista em relação à substância, iguala-a ao racionalismo
substancial cartesiano por um lado e ao matematicismo dogmático neoempirista
por outro lado. A hermenêutica heideggeriana impede que se compreenda a
história da epistemologia.
Inversamente
a uma concepção de mundo "hermenêutico"-heidggeriana na qual o
sentido dado é apenas a ocultação da alteridade possível do sentido, a
concepção estruturalista da linguagem como uma rede de oposições de modo que o
significado não existe independente do diferencial que o opera, generaliza para
a linguagem em geral o que vimos como a regra de construção do gênero
“filosofia”.
Aqui não seria oportuno incursionar pela defesa ou rejeição dessa posição, pois
isso dependeria de um desenvolvimento das variantes no interior da orientação
estrutural e “pós” que para o mais imediato ao menos se pode dizer que criticou
eficazmente a obscuridade da “ocultação” heideggeriana. Contudo, é
importante registrar que o estudo dessa variantes mostraria curiosamente que do
mesmo modo que Heidegger, ainda que por outros motivos, chega ao limite de
inviabilização da compreensão da história efetiva, praticando totalizações do
campo epistêmico sem referencial válido por abstração das mudanças
históricas.
A colocação em evidência da autonomia das linguagens permanece algo
indeslocável, porém, como crítica ao neoempirismo. Assim é oportuno
registrar que quando ocorre a conversão “naturalista” do neoempirismo, já
estão equacionadas com suficiência o que assinalei como as dificuldades
insuperáveis da fase “verificacionista” primeiro-wittgensteiniana que foi
característica do “Círculo de Viena”.
Entrava então em curso, numa vertente alternativa à radicalização
naturalista, a teorização do The meaning of the meaning, de Ogden
e Richards, novo contexto do neoempirismo e de expressão estadunidense, onde o
conceito de “representação” - ato mental entre a palavra e o objeto por ela
designado - se propunha superar eficazmente o cenário antes centrado em
torno do conceito de “significado”.
Assim o objeto não seria a priori definível de um ponto de vista
inevitavelmente filosófico, em geral – como coisa, ou conceito, etc. Mas sim
como o correlato do ato mental de representar-se uma realidade
terministicamente declinada.
Ao mesmo tempo o behaviorismo ortodoxo de Watson e Skiner, que o Manifesto
associava à sua linha empírica, estava agora confrontado à necessidade
crescente de integrar alguma variante mentalista entre “estímulo” e
“resposta”.
Informa Bogomólov, porém, que a emergência dessa tendência não implicou o fim
da orientação do Círculo vienense, mas sim o multimorfismo com que se revestia agora, no
pós-guerras, a linha neopositivista. Feigl, Reichenbach e Ph. Frank foram
então, emigrados aos Eua, os continuadores do “fisicalismo” do Círculo.
A meu ver é manifesto que se trata de um multimorfismo da tendência
empirista, mas não da orientação do Círculo que se preserva só nos seus
próprios continuadores de que estamos vendo ser o naturalismo um ramo de sua
atualização.
Além da corrente alternativa a ela, que seria a de Ogden e Richards, há
também a importante contribuição de Quine, tematizando o problema da
irredutibilidade linguística e cultural a partir da questão da
intradutibilidade.
Aqui a solução pela "referência" dos problemas relativos ao
significado não seriam aplicáveis. Pois se trata justamente de que
não se conserva a mesma economia do ato mental entre linguagens
irredutíveis.
Isso
é algo bem conhecido na linguística. "Cheese" e "fromage"
não são realmente as mesmas noções porque a realidade do "queijo" não
tem a mesma amplitude na experiênciade de um inglês ou de um francês. Mas os casos
que Quine examina são aqueles de etnias em que o falante de línguas
ocidentais articuladas em sujeito e objeto não pode entender a
estruturação frasal não assim construída.
Ele não considera o problema da tradução solúvel a não ser que se pudesse estender a
língua original e a língua tradutora como duas teorias e houvesse uma teoria de
fundo que as compreendesse a ambas.
Mas com que base a teoria seria construída além do falante da língua original
que não necessariamente compreende o seu referencial em termos de algo a ser
objetificado numa linguagem teórica? A meu ver não pode haver uma solução
meramente lógica em vez de encaminhamento sócio-antropológico, e é o que a
ciência social tem objetado aos reducionismos objetivistas.
19 / 05
O tratamento de Bouveresse ao tema do "positivismo lógico" ou
neoempirismo semelha a opinião de Bogomólov. Bouveresse tenta assim
designar as rejeições e as posições básicas a toda tendência empirista,
incluindo Quine. A ênfase dessa filosofia objetivista é agora mais Russel
que o jovem Wittgenstein.
Não concordo com o tratamento de Bouveresse, posto que não permite entender as
rupturas e sua inserção na ambientação epistêmica. Além disso é ambíguo, pois
unificando os autores, depois concentra-se numa revalorização de Carnap que
para ser feita depende de seccioná-lo do "Manifesto" como de um
episódio transitório.
Obviamente o cuidado com a interpretação no sentido dela ser do texto do autor
e não de um vago senso-comum sobre ele, não é "caridade" como algo
que devemos observar somente quando se trata do neoempirismo, mas o
mais básico requisito para todo entendimento validável da cultura.
Mas quanto ao dogmatismo da verdade ao mesmo tempo lógica e factual, que caracterizou
o neoempirismo e depois se radicalizou como naturalismo, o que me parece
espantoso não é que não se tenha muitas vezes respeitado o princípio básico
feito com intuito crítico, mas sim que todo senso-comum tem sido de
revitalização do seu dogmatismo às expensas do que realmente disseram de
absurdo como podemos recuperar pela citação dos textos.
Mas
se entendemos que dos neopositivistas e naturalistas por um lado, à teoria
da referência e a Quine, por outro lado, há um trajetória de
interferência com o leitmotiv lógico original dos vienenses, vemos que
isso ocorre a partir de um crescendo da questão da heterogeneidade
cultural, ou seja, do sentido e de sua construção.
Piaget por exemplo observou bem que ele mesmo não é um ramo do neoempirismo,
ainda que não chegando a ultrapassar o que Quine designaria o "dogma"
da universalidade do objeto formal. Piaget se colocou como ramo da
trajetória construtivista que teria começado com Boutroux e Cournot, os quais
equacionaram a inviabilização do formal universal num sentido não construtivo,
ou seja, puramente lógico e independente da experiência tal que depois a
subsumisse.
Estes dois autores mostraram que os resultados das ciências da
natureza particulares cada vez menos permitiam perfazer-se teoricamente um
substrato da Razão em si unificada. Pelo contrário, as categorias kantianas não
seriam aplicáveis a domínios além do visível a olho nu, enquanto vários
princípios desde a termodinâmica tem sem mostrado incoativos aos que regem o
senso comum da vida cotidiana. É o dogma de que haja uma realidade una do senso
comum que é ambíguo, pois sem objeto algum discernível. O que Piaget colocou em
termos de construtivismo é que a lógica da experiência existe mas não além dela
mesma, e quanto a ela mesma não é unificável além dos objetos que não são
coisas, mas práticas formalizáveis.
Estas não tem seu a priori no mundo somente, mas primeiro na experiência
que é a do ser que nela vem a ser inteligente.
As lógicas desse ser como horizontes da experiência possível a partir das
diferenças que o constituem como fases estruturais, permanecem
portanto a salvo da contraposição do inato e do adquirido, do racionalismo e do
fisicalismo.
O construtivismo piagetiano é ainda uma tentativa de conservar a formalização
possível a salvo da questão da heterogeneidade do sentido na cultura, e
tem sido criticado desde os anos setenta precisamente devido a isso.
A referência a Piaget é mais um modo de mostrar que se a trajetória
dos vienenses a Quine não é redutível à preservação de um mesmo
cenário, é porque as rupturas se concatenam a fatores
específicos, os quais se relacionam à visibilidade crescente do heterogêneo e
da margem. E também um modo de mostrar que o neoempirismo não foi um avanço em
relação ao que estava ocorrendo em termos de crítica à pretensão
positivista, a partir da década de setenta do século XIX, mas um estranho
recuo.
Já a trajetória da pesquisa em humanities desde inicios de século XX em diante
foi no sentido de inviabilizar a ambição da grande
teoria que predominou na década inicial, à Durkheim e Talcott Parsons,
naquele sentido preciso que assinalamos anteriormente, ou seja inviabilizou-se
sempre mais a confusão entre o estudo de um tópico ou fenômeno e a
"representação" da totalidade do Homem a partir dele.
Isso atinge o paroxismo na arte, que rejeita a tarefa de qualquer
representação mesmo fenomênica e se reveste do sentido restrito da atuação
localizada do artista em função dos seus procedimentos e materiais.
Por outro lado, o recuo neoempirista não parece algo arbitrário, mas como
podemos notar pela trajetória e até mesmo Piaget, algo coerente com a
persistência do desejo em fornecer algum arcabouço formal da objetividade
"da" ciência além do estudo das ciências em si mesmas.
Não creio que quanto a estas se esteja num terreno tão vago quanto Bouveresse
tenta fazer crer ao supor que não se teria facilmente uma explicação de
porque a relatividade é uma explicação científica e não mitológica, religiosa
ou filosófica.
A definição de Popper é perfeitamente válida. A relatividade pode ser falseada
pelos fatos - tais como a descoberta da medida da distância de
certos corpos celestes até então desconhecida. Mas aquelas explicações não o
podem.
Além disso, assim como a ignorância das rupturas se deve à abstração
do cenário enquanto histórico-epistêmico e não ideal, opera na objeção de
Bouveresse a ignorância do modo de construção das ciências em relação ao
daqueles outros tipos de discurso.
O problema real não é esse da delimitação dos discursos como científico ou não,
a partir de já ter um horizonte histórico-epistêmico especificado como de
independência das ciências empíricas. Mas sim a veleidade de que, em havendo
bem circunscrita a especificidade de uma explicação científica que só há
dentro de um discurso (aparato) científico, então não há outro(s)
discurso(s) senão como ilusão, pseudo-discurso, logou chárin, prazer de falar por
falar, etc.
Essa veleidade não é a de todos os que professam a especificidade ou a
validez do conhecimento experimental, mas sim a do radicalismo neoempirista e
"naturalista", além de ser mais geralmente uma posição de princípio
entre outras em epistemologia.
Ora,
o pivô da ignorância é o mesmo. O fato de que o discurso científico é limitado
pela "natureza", isto é, circunscrição explicitada do seu
objeto, e assim não há uma ciência do Real em si. Aristóteles, quem
primeiro sistematizou a posição dogmática que referimos, de modo nenhum
teve em vista a ciência experimental de objeto independente. Ele foi o
sistematizador da metafísica como um discurso cujo referencial é o Real em si,
a totalidade do Real sendo suposta existente racional e una como o correlato do
pensamento de alguém em si mesmo como um ser uno e idêntico a si mesmo, nesse
caso o pensante sendo Deus. Ora, a própria representação da
identidade substancial do pensante consigo mesma é uma petição se princípio que
a psicologia contemporânea não caucionaria.
Pois, Aristóteles não pensa o Sujeito, ele pensa a identidade redutora da
multiplicidade dos sujeitos por um lado, e por outro lado pensa essa
multiplicidade como a ilusão ou a matéria em devir, o impensável,
não o que precisamos pensar. Pois na mentalidade oligárquica
aristotélico-antiga, o fato de ser materializado é sem sentido e
circunstancial, o que existe como dotado de sentido e essencial é a forma
universal, isto é, nessa acepção específica, a identidade comum a todos desde o pensar.
A crítica ou desconstrução derridiana nesse caso é imprecisa, porque ela
nos diz apenas que se o pensamento é relacional, a metafísica como
paralogia de fundamento (universal) e suplemento (matéria), portanto paralogia
do pensamento como essencial, deve necessariamente em algum ponto retroceder
contraditoriamente, para fazer reentrar o suplemento que ela não pode evitar
de estar já pensando. Assim ela poderia, de contradição em
contradição, reeditar-se sucessivamente re-entryies formando em
todos os pontos de aparente ruptura do Logos um "mesmo"
metafísico.
Ora, como Derrida explicaria que em algum ponto a ruptura conduziu à
obsolecência explícita do paradigma idealista pela introdução do que ele
proibia como o experimental? Não queremos dizer que porque se o introduziu,
então o paradigma se inviabilizou, mas obviamente o oposto.
O que devemos notar é que não é apenas na atualidade que se fala de essencial e
de relacional em termos de imagens de inteligibilidade (epistemologias) que
se confrontam. Platão e Aristóteles como idealistas do essencial não
fundaram a filosofia, foram a reação oligárquica contra o que havia
impulsionado sua emergência, a saber, o relacional posto na imanência
da transformação do jurídico de que se desenvolveu a democracia.
Com a
desconstrução derridiana nós só poderíamos repetir o chavão de que
Aristóteles embasa filosoficamente o feudal cristianismo do Deus
único que assim discursivamente opera em toda a Europa a racionalidade objetiva
do x = 1, que então se torna o básico da transformação
"nominalista-empirista" de Bacon e Ockam.
Mas o que essa trajetória centrante esquece é que antes do Renascimento não há
nominalismo-empirista que precipite o método experimental.
A razão é que apesar da designação, aquele foi um movimento dentro do
aristotelismo feudal.
É só quando vários limites epistêmicos feudais são
ultrapassados pela retomada dos estudos de fontes não metafísicas, além da
queda do dogma da inexistência dos antípodas - comprovados pela descoberta das Américas, realidade puramente empírica - que o método experimental emerge
em explícita ruptura para com a física totalizante de Aristóteles e a
metafísica a ela coerente pela qual a razão não poderia ter na
efetividade factual qualquer correlato, mas somente o reflexo da verdade ideal.
Verdade cujo correlato mesmo é o ser suposto não material.
É desde Galileu que a física não é imaterial, posto que se é matematicamente
instrumentalizada e mesmo projetada como teoria, é em função de fenômenos
materiais e supostos como tais, isto é, cuja inteligibilidade depende de se ter
uma teoria da matéria e de se conhecer o comportamento dos corpos.
Essa teoria física, ela mesma não é a do Real em si, posto justamente que se
relaciona ao material, não por exemplo ao psicológico, ou ao cultural, etc. - ao
contrário do que o discurso aristotélico-metafísico ou religioso cristão
científico almeja fornecer por simples enunciação. Como sabemos, não
implica que como pessoas que divergem entre si não haja epistemologia voltada à
tentativa de preencher a distância da Representação criada pela ciência
experimental, mas inversamente ao que Foucault postulou, não ocorre que tenha
sido possível às humanities que justamente perserveraram na via do empírico
manter essa ambição.
O que a Geoegologia estuda é a motivação dessa perseverança como
etnocentrismo, o que os derridianos também pensavam, mas supondo tê-lo explicado pelo
fato de que nunca antes se tinha apreendido o inconsciente.
De fato, entre a teoria do inconsciente e o relacional, Derrida me parece não
ter ele mesmo preenchido a lacuna. O que ele forneceu foi mais uma
justificativa do etnocetrismo ocidental na base de um desejo único
inconsciente desde a metafísica, determinado pelo - e ao mesmo tempo, como
- "logocentrismo" do signo linear alfabético.
Mas como vimos, isso implica abstrair, tanto quanto distorcer a história da
filosofia antiga e a história da ciência moderna: tornando-as cenário
único as expensas do que sabemos ser heterogêneo.
O
importante, que Derrida não percebeu, é que como duas epistemologias, do
relacional e do essencial, em trânsito desde a antiguidade ainda que o período
feudal seja um caso à parte de repressão essencialista, elas mesmas não são
relacionais. Elas não formam um tensor ao longo do qual expressam seu
devir por atos possíveis. Elas são, inversamente, discursos irredutíveis.
Mas ambos constantes na história em vez de estarmos na atualidade descobrindo
pela primeira vez o relacional a partir do determinismo inconsciente freudiano
que pelo contrário, não o explica senão reduzindo-o de algum modo
à contraposição assimétrica em função do um significante.
Derrida critica essa redução, mas não chegou a fornecer uma teoria do
inconsciente relacional. A solução pela violência do desejo fora do um é
apenas o que toda psicanálise já dizia desde sempre. Ora, o importante seria
notar que como discurso irredutível ao relacional, o essencial não precisa
necessariamente praticar a reintrodução ou manutenção ao mesmo nível do
discurso, daquilo que não pode deixar de ser pensado como o horizonte efetivo
ainda que primeiro dado como suplemento. Na antiguidade o veto à
circunscrição fenomênica implicou a impossibilidade do experimental que
surge com o renascimento - e é notável eque o ceticismo esteja entre ambos com
tanta nitidez. Mas no período cartesiano, o que o idealismo racionalista a
priorístico implicou foi uma concepção de natureza como dualidade de matéria
e espírito, que Foucault teve razão em salientar. Aqui a visibilidade do
Novo Mundo me parece ter sido o fato crucial da impossibilidade de abstração do
material ainda que nesse singular curso de pensamento, este não tivesse
potência ativa, e fosse inversamente pensado como pura passividade, natureza apenas material.
O importante portanto é que como a Geoegologia pode denotar, há uma
indiscernibilidade entre a emergência do experimental e a ultrapasagem do mundo
igual a si mesmo da Antiguidade, isto é, a visibilidade do Novo Mundo.
Se em física isso pode parecer menos demonstrável, certamente
não o é em teoria política de Locke a Rousseau.
As lacunas derridianas entre inconsciente e epistemologia são impreenchíveis
porque isso dependeria de se ter bem delimitados os horizontes da
pesquisa, por exemplo, com relação à neurociência e às humanities, mas foi isso
que o pós-estruturalismo recusou em princípio por estar atrelado ao suposto
como tal determinismo de uma figura unitária sistêmica do desejo assim como por
outro lado estava atrelada a fenomenologia hermenêutica à figura unitária da
"visão de mundo" como consciência - o que veremos mais à
frente.
Aqui a Geoegologia inverte também o Foucault de As palavras e as coisas.
Como estamos notando, não é nas humanities que a
"representação" persiste como horizonte delirante de alguma
"razão" total ainda que em pleno decurso da ciência experimental com
toda a especificidade que delimitamos. Bem de modo oposto, como estamos
examinando.
II)
Se Einstein colocou progressivamente a ênfase no formalismo teórico, ele mesmo
não deixou de limitá-lo à evidência dos fatos enquanto possibilidade de ser
aceito no jogo da ciência.
Mas
mesmo esse a posteriori estaria relativizado numa busca como a de Carnap, da
fórmula do ajuste entre a linguagem observacional e a linguagem teórica, não
supondo portanto a estrita coincidência de princípio – como uma redução
propriamente linguística a priori – da primeira à segunda.
Já o fracasso do verificacionismo tão defendido por Maurice Schlick, se deveu
precisamente a que sendo um axioma do sentido em função do fato, não puderam
seus defensores fazer frente à objeção de que o axioma ele mesmo não é
verificável por algum fato.
A indução como precedência da experiência científica ao dito Verdadeiro ou
Falso na linguagem científica – e em termos de que se organizará um corpo de
leis científicas, não meramente um repertório de fatos conhecidos - é o que
me parece estar subjacente ao axioma do jovem Wittgenstein em termos do método
de verificação subjacente ao sentido, supondo-se haver, de uma
proposição.
Pois, se há sentido é porque pode ser falseado (negado) o que se afirma como
tal, mas só o que está na experiência pode ser falseado como tal, não o que
está apenas na idealidade.
Não havendo meios de se opor uma coisa e outra senão pela experiência ou
indução que agora não é meramente ir verificar, mas portar como by-product
a verificação no conjunto de procedimentos relativos à junção de teoria,
lei e descoberta. Ainda assim a verificação não é o termo apropriado, porque não pode haver o critério da exauribilidade quanto ao falseamento possível.
O que havia de ambicioso assim era a suposição de que
como a ciência é racional, o seu objeto teria que poder reduzir-se do corpo de
leis à definição tautológica de si. Outro modo de especificar o que vimo
acima como a hybris contemporânea da Representação.
Aqui vemos como o "naturalismo" de Nagel e Hempel é uma radicalização
do neoempirismo vienense, mas não simplesmente a reificação de suas premissas.
Ambos
jogam, inversamente, não com a linguagem verificável em princípio, mas
com a natureza e sua acessibilidade pela teoria científica.
E deste modo, como enfatizou Robert Gorman, é sua tipologia de explicações
científicas discriminando modelos "genéticos",
"teleológicos" e "estatísticos" - além do
propriamente "dedutivo" agora definido em termos de reconhecimento da
pertença de um fato como exemplar da ação de uma lei. Essa tipologia de
fato encontramos no texto de Hempel
Mas tendem Nagel e Hempel a eleger a dedução como o fator comum
subjacente a todas. Conforme Robert Gomam:“Nossa breve averiguação
dos vários modelos de explicação científica ilustram o fato de que cada um
deles se concilia com a exigência naturalista de que a explicação científica
seja 'uma assunção dedutiva sob uma lei geral'".
Aqui, se há uma controvérsia no interior do naturalismo não restrito a Hempel e
Nagel, Gorman especifica a posição “instrumentalista” destes, segundo a
qual as teorias são modelos lógicos que embora “nunca traduzidos em dados
sensoriais, dão ordem e significado a um grande corpo de fatos
confirmados empiricamente".
Tanto Bogomólov quanto Molles, o primeiro tratando especificamente do
naturalismo de Nagel e o segundo, da trajetória da filosofia da ciência de
inícios de século XX ao momento da afirmação da mecânica quântica, se expressam
em termos de retorno do “idealismo” na ciência, concomitante portanto ao
abandono do cientificismo anti-filosófico.
Salienta-se em Molles o fato de que mesmo no período da preponderância do ponto
de vista neopositivista, essa posição fora mais uma corrente epistemológica
específica do que a realidade do que pensavam todos os cientistas.
De fato, como já acentuamos. E na História da Filosofia de
Bréhier registra-se, pelo contrário, essa época como a de um pós-positivismo –
excetuando-se a escola do Círculo de Viena, é claro – em que houve um massivo
retorno da metafísica, se bem que apenas em termos de interpretações espiritualistas da evolução.
Já salientei que esse espiritualismo foi desde os tempos de
Hartman, como tipicamente no bergsonismo, reintegrado a um ambiência
crítica da metafísica não porque tenha havido uma unidade neopositivista
cientificista. Mas porque o espiritualismo se compreendeu como crítica do
essencialismo aristotélico que então já se distorcia como fundamento do
horizonte do objetivismo.
Ou seja, nesse caminho houve uma cisão muito séria no horizonte intelectual do
Ocidente, como posições radicais pró ou contra a ciência contemporânea
experimental. Ainda no período tardio de Piaget, essa cisão persistia como em
sua exemplar dissimetria de cientista com o fenomenólogo Merleau
Ponty.
Em todo caso, o período concomitante ao rise "naturalista",
assinala um idealismo científico persistente porque não restrito a uma
temática, e pelo contrário, devido à superação do determinismo segundo Molles,
ou como podemos generalizar, devido à questão da ciência em função da
dependência suposta de sua objetividade ao determinismo. E de fato, como vimos,
não foi este de todo deslocado até ser reabsorvido nos estruturalismos eles
mesmos.
O assim designado idealismo de Nagel em Bogomólov é tratado como uma
filosofia, ainda que deficiente por incapaz de esclarecer-se definitivamente
como um materialismo empírico da natureza ou um racionalismo lógico.
Bogomólov destacou duas citações de Nagel em que ora um, ora outro princípio,
foi designado como filosoficamente primeiro, sendo que explicitamente
“naturalismo” em Nagel significa, como citado em Gorman: “o desejo de
explicações sistemáticas e controláveis pela evidência factual” como aquilo
que “gera a ciência.” Ou seja, dois objetivos que conduziriam, cada um,
a um dos fatores colocados como racionalismo e empirismo.
A questão
como a estou visando, se esclarece pela ordem da precedência, e nessa citação
de Gorman podemos reconhecer o padrão a posteriori do empírico em face de um
encaminhamento epistemológico a priori dedutivista.
A confusão como ilustrada por Bouveresse se deve ainda, como podemos notar
agora, ao esquecimento da autonomia da epistemologia em relação ao exercício
efetivo da ciência que em todo caso é o que se defende como dotado do real
poder da expressão do verdadeiro.
Já o marxista-leninista Bogomólov rotulou Nagel em termos de idealismo
precisamente devido a essa ordem de precedência, uma vez que ela necessariamente
está suportada pela premissa da independência da ordem lógica em relação
à ordem material. Essa mesma objeção poderia ser feita por Piaget, que atribuiu
sua concepção, a inteligência prática, como já encontrável em Marx.
A crítica de Piaget é importante ainda se observar, quanto ao seu argumento
segundo o qual ser um neoempirista - ou um naturalista, nesse caso -
implicaria uma pré-concepção do que é científico como o que é
estudável. Relegando-se algo como metafísico e não estudável,
mas para Piaget nada que tenha sentido humano poderia não ser
a princípio estudável cientificamente.
Ou seja, aqui a polêmica já é dirigida também contra a fenomenologia, que considera o que é humano em princípio não científico. O que muda do naturalismo à fenomenologia, é que o primeiro valoriza e o segundo despreza, o estatuto do científico. Em
psicologia, a observação de Piaget sobre o problema da delimitação a priori da
pesquisa realmente se mostra pertinente.
Tornando à questão da independência da ordem lógica, essa premissa sendo a
síntese do idealismo para Bogomólov. Este assim a rejeita enquanto
marxista-leninista ligado ainda à teoria do reflexo e à tese da dialética
interna à própria natureza, isto é, indissociável da noção mesma de
materialidade.
Na teoria do reflexo, o intelecto ainda é espelho da realidade objetiva, mas
enquanto interagente dialético-criativamente com ela. A teoria do reflexo tem
algo da "inteligência prática" de Piaget que somente até esse
patamar da interação a considerou marxista.
Mas a teoria do reflexo leninista foi considerada obsoleta porque
não considera nenhum parâmetro subjetivo da psique como por exemplo já integra
Piaget a partir da noção de fases irredutíveis. A teoria do reflexo conserva muito do que já não se aceita nos termos das concepções tradicionais da mente e/ou da
linguagem como cópia da realidade.
A relação da radicalização naturalista com a problemática histórica do
jurídico, enquanto definindo a vigência deste o Estado de direitos , é
efetivamente ilustrada pelo texto de Nagel intitulado “Ciência: natureza e
objetivo”, constando também no volume de Morgensener.
Assim vemos que a defesa intransigente da totalização cientificista da
Razão está efetivamente implicada na redução conceitual do Estado de
direitos como o moderno-ocidental, tradutível habitualmente por
“sociedade liberal".
Insistindo na independência da ciência com relação aos dois fatores com que é
ordinariamente confundida – a tecnologia e o senso comum – Nagel não deixa de
acentuar que os seus “sistemas explicativos” não devem ser encarados
como “corpo de conclusões fixas e indubitáveis, mas como resultados não
definitivos de um contínuo processo de investigação que envolve incessante uso
de um particular método intelectual de crítica. Esse método lógico é a glória
específica da Ciência moderna e o alicerce espiritual de toda civilização
genuinamente liberal”.
Aqui se coloca portanto aquilo que intercepta não somente ciência e política,
mas também a problemática concernente às humanities. E a continuação
do exame deste texto de Nagel o especifica sem dúvida .
20/ 05 ; 23/05
Assim
como o texto já citado de Hempel, o de Nagel contem uma restrição sobre as
ciências humanas. Elas são visadas nesse estatuto, não no de pseudo-ciências
como julgava Foucault, mas somente nesse papel prescritivo da
declinação de uma verdade natural do homem.
Ao contrário de Foucault, o texto de Nagel mostra que é à ciência natural que pertence a Representação
do Homem como objeto unívoco anteriormente a qualquer prova anuladora da
diferença na cultura como algo mais do que conteúdos submetidos a um mesmo
crivo de verdadeiro ou falso. Não se requisita da pesquisa que nos
forneça o que é preciso para afirmar ou negar que a formação subjetiva e
intelectiva é independente dessa diferença ou do que mais. Utiliza-se
irrefletidamente uma concepção oriunda apenas do imaginário, sem suporte
científico de sua construção.
Mas como algo que estaria refletido pela própria existência da
ciência como produção de verdade, essa concepção não poderia ser
epistemologicamente identificada senão como a conhecida petição de princípio
quanto à "substância": descarta-se o devir como se já se estivesse na
certeza do que é o ser, mas na verdade essa certeza não se ampara em
coisa alguma além da preconcepção arbitrária quanto ao quid.
Assim aparentemente o trajeto da argumentação de Hempel e Nagel vai da
certeza da Science à posição assegurada da certeza em Humanities, mas o
que se revela é que o juízo sobre esta segunda, enquanto uma petição de
princípio determinada quanto ao quid, estrutura o enunciado em que se
recolocou a primeira.
Pois nem mesmo o behaviorismo pode fornecer o que Hempel e Nagel supõe a
priori requisito ao estatuto científico das humanities, se ele se
limitou, justamente para conservar-se científico, ao comportamento de um
organismo em seu ambiente. Ou seja, colocando fora da psicologia possível toda
representação definitiva sobre a natureza do organismo como do ser humano.
Em princípio o "comportamento" (behavior) é um
mesmo conceito subjacente ao protocolo de qualquer pesquisa psicológica -
do homem como dos outros animais, e os juízos que a pesquisa permitir que
se façam sobre o comportamento não estará restrito a qualquer dogma sobre a
natureza da espécie como uma ideia possível. O que se pesquisa como
psicologia (behaviorista) são as leis do comportamento em geral,
e não o que faz um ser poder definir-se pertencente a
uma espécie.
Quanto
aos outros animais, esta questão do ser seria da alçada da
biologia, e quanto aos seres humanos, tanto da biologia quanto da neurociência.
Assim, se existe consciência, se ela é a diferença especifica do homem, ou se
há inconsciente e etc., em qualquer caso afirmativo, em que consistem,
tudo isso seria da alçada da neurociência desde Watson a Skinner. Não da
psicologia, que assim eles na verdade não queriam como "humanities",
mas não sendo um ramo da biologia realmente não há outra acomodação possível.
A viragem mentalista interna a algumas tendências não Watson-skinnerianas do
behaviorismo levou a um impasse que hoje costuma ser dado por solvido pela
superação da psicologia behaviorista e sua posição como um
desenvolvimento da psicologia cognitivista. O problema é que a história
do behaviorismo intercepta a da epistemologia do século XX, que como o
neoempirismo foi sempre mais radicalizando a cegueira oriunda das abordagens
deterministas-universalistas.
As correntes anti-cientificistas ou anti-objetivistas interceptam assim a
história da psicologia e coagem a um cenário de predomínio da Gestalt
facilmente conexo à fenomenologia, influente no próprio behaviorismo desde
Lewin, e depois disso vem o construtivismo piagetiano.
O fundo comum de todos esses aportes diferenciados é contudo a
pretensão universalista que não mais pode, quanto ao homem, dispensar um
terceiro elemento entre estímulo e resposta. E assim reintroduzir
explicitamente o que vimos acima como a evidência de que não pode haver uma
trajetória da ciência em si à representação do homem como objeto em si de uma
ciência, sem que a representação deixe de ser pressuposto , não científica.
Portanto não pode haver uma ciência do homem que pudesse anular a questão de
sua inerência à espécie a partir dos fatores internos ao observável
como linguagem, cultura, fases psíquicas ("mentais") formativas,
a prioris de percepção, etc., tal que todos são/serão protocolos
de pesquisa das escolas a propósito de uma problemática, não um dogma
uno em si possível a propósito do Homem. Como objeto de pesquisa,
"Humanidade" não existe.
Assim compreendemos não só porque a argumentação do behaviorismo ortodoxo
anti-mentalista foi tão duradoura, atingindo até o cenário dos anos setenta do
século passado e tendo se iniciado bem em começos dele, como o
seguinte fato. Na verdade, a terminologia de superação do behaviorismo
anti-mentalista é ainda algo muito envolto nas trevas do anti-cientificismo
surgente nos anos trinta. Se definir "psicologia" além das
escolas que existem é uma tarefa complicada, o mais comum quando dela um
escritor não se pode furtar ainda é ler-se que é a "ciência do
comportamento".
O cognitivismo como inclusão mentalista pode então ser definido como a ciência
do comportamento cognitivo, assim como toda especificação dos numerosos ramos
da psicologia que se dividem quanto ao objeto de sua pesquisa - não
há uma psicologia em si além desses ramos, repetimos - pode ser
nomeada a ciência do comportamento relativo ao objeto específico de
sua observação. Porém o cognitivismo tem um limite na teoria do inconsciente. Sendo um princípio da mente cognitiva, realmente não considera a possibilidade da mente como "libido" ou sexuada. Ora, de modo deficiente ou não quanto aos pormenores teórico-clínicos, o desejo explica a gênese da cognição, porquanto ele não se restringe a instinto cego, mas é o motivo básico do comportamento. Porém a cognição por si só não explica o desejo.
Quanto ao naturalismo de Hempel e Nagel, vemos então que nessa questão
das humanities eles estão saltando de um modo análogo ao salto
dos vienenses de inícios de século XX, da verificação ao verificacionismo
como do requisito empírico da pesquisa experimental a princípio de verdade
universal. Isto é, no caso deles, da pesquisa de ciências humanas particulares
à fantasia de uma ciência do Homem em geral.
Mas
se o fazem é para manter a mesma representação de uma
ciência-verdade, que como vimos está lastreando uma interpretação genética da
sociedade liberal em função da existência da ciência moderno-ocidental.
O que houve a partir daí não foi uma ruptura para com essa paralogia,
dentro das demais visões universalistas não importa o quão diferenciadas,
mas sim uma adaptação dela a um parâmetro tal que a junção ciência-sociedade
consubstancia a noção mesma de Ocidente como teleologia sócio-evolutiva, e o
que destoa se torna fase anterior.
Inversamente, a pesquisas concretas em Humanities só puderam ser decepcionantes
a toda perspectiva assim, ainda que os choques paulatinos não tenham
sido abruptos pois os resultados foram sendo amparados por arcabouços
teóricos mal e mal arranjados ao protocolo in loco. A viragem
decisiva está ocorrendo quando os pesquisadores ultrapassam a fronteira das
nacionalidades "ocidentais" e/ou de seus status associados, e
assim não estão interessados nesse tipo de arranjo, pelo contrário.
Podemos então deduzir que o universalismo como Representação do Homem não é uma
perspectiva adotada pelos pesquisadores em humanities que operam
com uma ruptura em relação à “natureza” na acepção de um suposto referencial
unívoco de inteligibilidade a priori.
O fato de que a colocação em xeque das humanities como ciências não é
estrita aos adversários seja dessa sua posição de ruptura, seja de si mesmas
como em Foucault e outros, mas por vezes é expressa com uma tonalidade
afirmativa pelos próprios pesquisadores em ruptura se explica assim.
Eles associam o estatuto de científico a algo que se comprometeu em sua validez
a partir do que vimos como petição de princípio do universal científico - assim
como esse termo se designa em função do campo epistêmico disciplinar
contemporâneo cindido entre ciências da natureza e humanas.
Por um lado, essa atitude tem a ver com o dogmatismo da "visão de
mundo" fenomenológico-hermenêutica que contaminou muito da pesquisa como
solução de compromisso, com sua ambiguidade característica entre a redução do
"outro" a um dogma único de sua alteridade. E a "compreensão"
sendo no entanto o requisito do "mesmo" (ocidental) cuja mesmidade
vem a partir de sua posição enunciativa de toda identidade e diferença -
como estrutura da consciência pré-reflexiva, linguagem reduzida a
significação ou narrativa, etc..
Mas
por outro lado ela se ampliou em muito a partir dos sixties, quando ocorre
aquela viragem que assinalei, do próprio contexto do pesquisador que se torna
off-center ("ex-centrado"). O elo epistemológico se tornou uma
problemática interna a toda ciência, e tem sido atual a questão da
"cientificidade" como um conjunto de dogmas e racionalizações sobre
si ao invés de realmente racionalidade. Ou se mesmo a racionalidade como tal
- nesses parâmetros- é sequer possível, e isso a partir da própria física como por
exemplo, em Prigonide e Stengers.
Um novo conceito da ciência está amplamente em questão, não obstante os
simplismos dos tecnólogos festejados à Pierre Levi. Mas talvez seja
mais como uma superação do horizonte uno/unificável do que se procura como
"conceito", e se esteja - somente agora - numa "linguistic
turn" interna às epistemologias e à "ciência
ocidental" como problemática referenciáveis.
O cenário atual se torna assim manifestamente complexo e creio que algo urgente
seria tonar a clarificar o que são as humanities não em geral, mas em suas
pesquisas específicas. O pós-estruturalismo prejudica enormemente essa
necessidade. Ele se pronuncia como se estivesse além do conteúdo da
descoberta, mas na verdade apenas se mostra aquem dela. Podemos notar isso ao
contrastar a opinião de Guattari sobre "produção de subjetividades"
pelo capitalismo - ele dizia então que o capitalismo produz subjetividades como
uma fábrica produz leite condensado ou automóveis - isto é, em série e
pré-formatados conforme planejamentos de tipos. Mas como Guattari pode ter
saltado sobre toda pesquisa sobre a problemática da subjetividade, a qual não
chegou nem poderia chegar a algum dogma, mas apenas a princípios dentro do
campo da especificidade dos fatores pesquisados /pesquisáveis- como vimos
acima? Como pode afirmar que a subjetividade pode assim ser produzida
sucessivamente e a bel prazer de quem quer que seja? Tudo o que se capitalismo pode produzir são estereótipos, mas então torna-se uma questão importante a estudos especializados como da sociologia, psicologia, psicologia social, etc., o modo e a extensão em que o estereótipo realmente se torna socializado.
Costuma-se referenciar o funcionalismo como dogmático, mas como um arcabouço da
liberdade da pesquisa vemos que ele pode não descurar
sua necessidade.
Assim Robert Merton e P. Lazarfield salientaram que saber que uma pessoa gasta
horas por dia ouvindo rádio não permite de modo algum definir a priori o
que se segue desse fato. Que o capitalismo invista em marketing e
propaganda não permite que se predigam determinações quaisquer da relação
dessas coisas com algo como subjetividade - que nem está especificado a
princípio o que seja.
Merton é um referencial importante na demonstração de que o contexto da
descoberta desempenha um papel histórico que deve ser estudado em sua
autonomia. Como um sociólogo funcionalista, ele preservou o tipo de explicação
de médio alcance e assim generalizável em princípio, por exemplo como as leis
do comportamento que incidem sobre relações de in group e out group em
qualquer sociedade considerada conflitiva por essa cisão.
Mas ao se interessar pela "comunicação em massas", assim como já para
suas análises mais pormenorizadas dos fatos dentro do arcabouço das questões em
princípio cobertas pela teoria de médio alcance, Merton realmente
exemplifica formas de delimitação da problemática que extrapolam a média
no rumo da pequena teoria - ou seja, no rumo da conformação de uma região
problemática como pesquisa especificada apenas pelo horizonte de
informação empírica e questões (não leis) correlatos a elas.
Desde
aqui devemos notar como Hempel e Nagel enunciaram aquilo que a ele
creditamos como o salto dogmático, nesse âmbito que como espero já ter
ficado claro está intrinsecamente relacionado ao estatuto político da
prática científica na medida em que circunscreve o paradigma de sua
finalidade. Esse salto assinala a entrada na ambiência que estamos agora
constatando crucial à nossa era em termos de um mundo que veio a se configurar
cindido pela Reserva do Saber.
Examinando com certa minúcia o texto de Hempel, vemos que ele especifica
um tipo de explicação que seria o exigido pelos cientistas em Humanities e que
é incoativo aos demais tipos referenciados próprios da Science (da
natureza).
Quanto a
estes, porém, que vimos como estatístico , genético, etc., ele agora
resume
como “explicação
de qualquer fenômeno empírico” que basicamente “envolve sua subsunção
dedutiva ou probabilística...”. A subsunção em si é a “leis ou teorias
abrangentes” e se não fosse o tipo de explicação especificado, não haveria
realmente como antepor que as ciências humanas tanto quanto quaisquer outras
são a priori teoricamente subsumidas
Assim a questão não é mais o fato teórico da ciência em geral, mas passa a ser o tipo de explicação que o "naturalismo" define como científico. Hempel então reduz a problemática de uma exigência metodológica das humanities em termos da necessidade apontada de explicações além das duas referenciadas como dedução e probabilidade, e a isso trata em termos da exigência de um novo tipo, a “explicação por meio de razões".
O que
Hempel está designando como explicação por meio de razões é de novo apenas um
reducionismo objetivo, na medida em que a define como a especificação da razão
pela qual alguém age. Essa especificidade estará moldada pela identificação de suas crenças
a propósito do assunto empírico relevante a essa ação.
A ação é
preconcebida como algo movido por “ crenças, intenções, padrões morais,
traços de caráter ou algo semelhante”, o que conforme Hempel seria ainda o
redutível a generalizações “tipo-lei”.
Hempel
nesse trecho citado, pensa na obra de Colingwood, que segundo ele teria reduzido
a explicação em humanities ao que objetivaria:
“o
acréscimo de uma presunção explicativa da ação pelo agente como alguém que
então se vê pertencendo àquela classe de pessoas que, normalmente, praticará a
ação aconselhada pela situação em que se encontra”.
Como
vimos exemplarmente em Merton, e como algo interno à complexidade do seu
desenvolvimento teórico, é a correlação entre ação e situação o que não pode
estar assim pré-concebido se o resultado que se almeja não é trivialidade
ou fantasia. A constatação desse fato salvou a sociologia da acusação que lhe
pesava a essa altura, de ser inútil justamente por que cingindo-se a tal
preconcepção ideal-típica, não haveria nada além dessas duas coisas em seus
resultados.
Isso, se o
campo das ciências humanas não é restrito ao estudo de “ações e decisões
humanas” como supõe Hempel de uma forma aliás um tanto contraditória porque
já nesse ponto vai falar de “motivos conscientes e inconscientes” -
portanto o que extrapola qualquer quadro decisionista da ação.
Nagel é
mais explícito quanto ao que realmente o naturalismo quereria propor em termos
de redução metodológica dessa área. O texto que citamos, como vimos,
ignora qualquer nível de complexidade social para manejar os conteúdos científicos
diretamente como valores, sem preocupar-se com o intervalo real entre ambas as
instâncias.
Assim
estes conteúdos são em si mesmos afrontas validadas a “crenças e práticas
supersticiosas” tanto quanto a “temores brotados da ignorância” e é
nessa base dogmática que são erigidos em “fator importante no desenvolvimento
da civilização liberal”.
Como se
faria na prática o intervalo entre o bem e o mal, se a complexidade
sócio-histórica não foi primeiro condicionada pela ciência e assim os seus
próprios conteúdos não estão previamente circunscritos ao que a ciência já tem
em mãos? Por outro lado, o que a Science circunscreve como conteúdo
possível não está demonstrado coincidir exaustivamente algum dia com a esfera
da complexidade dos valores.
Por
exemplo, como já vimos, os pesquisadores de humanities estudam a variação de
instituições sociais em sociedades diversas. Formas de casamento como
poligâmico ou monogâmico, poligínico ou poliândrico, liberdade ou vigilância do
comportamento sexual de adolescentes e casados, papel de gêneros sexuais,
formas de trabalho, valores ambientais, espiritualidade, não são hoje em
dia considerados como fatores de decisão pela ciência, digamos, quanto ao
modo como a variação se combinaria numa escala de mais ou menos adequado a
algum ser do homem. Não há nenhuma crença possível sobre o que é melhor, e na
verdade é raro que uma sociedade meramente se coloque essa indagação na
ausência do etnocentrismo cristão. Os judeus da bíblia são quase aberrações
quanto a isso.
A monogamia ocidental que praticamos habitualmente na forma da lei é também
rara quanto ao fato de que ela se baseia modernamente em ligações
apenas por eleição dos próprios cônjuges. Mas só muito recentemente é que
essa forma se instituiu no Ocidente, e até pouco tempo ainda havia a figura
jurídica da "legítima defesa da honra" - em que o marido podia
ser absolvido se matasse a mulher comprovadamente infiel. A tragédia
Angela Diniz-Doca Street, ainda nos anos setenta do século XX,
contribuiu para fomentar ampla campanha local a fim de se acabar com a
forma jurídica da "legítima defesa da honra", obviamente sem prejuízo da "legítima defesa da vida".
Continuamos monogâmicos na acepção somente de que ninguém pode casar
oficialmente - no cartório - com mais de uma pessoa por vez, ainda que o casamento
não seja mais indissolúvel como até pouco tempo era, e exista na nossa
constituição a figura legal do divórcio que faculta casar-se novamente em
cartório.
Além disso, nossa lei de hoje em dia não pune na figura do direito o
comportamento sexual de pessoas maiores de idade, solteiras ou divorciadas, não
obstante poderem não se restringir a um só parceiro. Quanto a pessoas casadas,
além da restrição oficial de só poderem estar casadas com um cônjuge, e do
sexo oposto, seu comportamento além disso é questão pessoal, e
podemos conjecturar que ajustado até ao que pensa o próprio cônjuge.
Parece que a prostituição continua proscrita legalmente - ainda que seja
praticada de modo tão conspícuo, o que me parece um contra-senso além é claro da
restrição devida a menores de idade.
Tópicos como casamento de homossexuais, legalização da prostituição, etc., são
matéria de mobilização da sociedade civil e dependem do apoio de uma maioria
expressiva para se instituírem. Numa sociedade democrática o legislativo
suposto não corrupto está sempre reexaminando o conteúdo dos códigos existentes
em função dos interesses das bases que o elegem periodicamente, supondo
portanto que a atualidade da constituição reflete o estado político atual da
sociedade civil.
Há várias sociedades antigas onde a prostituição não era punida, mas honrosa,
e a suposição de Engels de que é sempre correlato do tabu da virgindade - há prostituição porque o rapaz não pode ter relações com a namorada virgem -
não parece válida para os Lídios por exemplo.
Há muitas sociedades em que a liberdade do comportamento privado se
estende a pessoas casadas - como entre os Tobriandeses - mesmo que não
exista a poligamia oficializada ou que a liberdade exceda o rol dos parceiros
oficiais.
Isso nada tem a ver com "promiscuidade primitiva" enquanto ausência
de lei, pois não implica ausência de restrição ao incesto. Não existe
"promiscuidade primitiva" segundo a antropologia atual. Também
os costumes tobriandeses não implicam inexistência entre eles de trabalhos
organizados e relações de troca intertribais regulares.
Todas as variações são igualmente formas socialmente instituídas - não é
porque o conteúdo varia que se poderia supor que há ausência de lei ou de valores.
Não
há, entre as escolhas em cada um desses tópicos, hierarquia alguma - as
escolhas não são entrelaçada de forma constante mas formam
combinações estatisticamente aleatórias (Willems; Beattie).
Além disso, os costumes ligados a cada uma dessas escolhas por uma sociedade
não coincide necessariamente com os costumes que validam a mesma escolha numa
outra sociedade. Sobretudo não há uma concepção universal da regra. A
moralidade ocidental em que se opõe tão claramente de um modo
generalizado dever e desejo subjetivo não é constante para muitos
referenciais de espiritualidade e de convenções instituídas
não-ocidentais.
Enquanto cientistas sociais, estamos portanto interessados apenas em
compreender o alcance da variação, e hoje em dia temos, como explicitado, uma
visão bastante rica a propósito, pelo acúmulo das pesquisas e paulatino
abandono dos obstáculos de preconceito e preconcepção.
Mas enquanto ativistas, se o somos como quaisquer outros membros da
sociedade interessados em melhoria social, podemos militar por ver escolhas que
supomos coerentes sancionadas por lei. Assim funciona o sistema legítimo dos
"três poderes" num Estado democrático: legislativo, executivo e
judiciário; movidos pelo voto e pelas mobilizações da sociedade civil.
O ocidente ser politicamente liberal implica essa militância, mas não uma
predeterminação da autoridade única quanto à verdade das escolhas, pois se
houvesse não haveria militância: todos teriam que obedecer ao mesmo
comando. Além disso, a definição básica da sociedade liberal é a meu ver que nela consta a cisão de público e privado. O público são as leis politicamente (democraticamente) sancionadas como obrigações de todos os membros da sociedade, mas o privado são os costumes que cada um escolhe livremente como seu. Se houvesse uma ciência supraordenadora de todas as escolhas, ela seria o oposto do liberalismo pois não haveria privacidade de opções.
Assim quando Nagel antepõe politicamente a ciência à
superstição, vai além do campo de decisões que cabe ao cientista
natural em sua matéria. É claro que somos capazes de entender a oposição que
ele referencia, nesse campo. Mas extrapolando-a para o social em
geral, não podemos entender o que ele pensa quando parece estar
afirmando que a ciência pode responder a propósito em todos os casos, e ainda
que essa atribuição de autoridade ao cientista é o requisito sine qua non
do liberalismo.
=====
Em sociologia, a pesquisa das taxas de crime revelou que todas as generalizações sobre situações de predisposição ao crime eram erradas, não coerentes com o que as taxas revelaram como os habituais protagonistas do comportamento criminoso. Em vez de situações predispostas, houve apenas um incremento percentual da firma americana como habitual praticante de crimes - ou seja, por razões utilitárias e não por situações de origem como pobreza, etnia, ambiente social, pais separados, etc. A única constante situacional de grupo relacionável ainda às taxas, foi o baixo "quosciente intelectual", isto é, estados próximos da imbecilidade.
A informação insuficiente é a que se faz por fontes não controladas à base de hipótese explicitada de modo que o ajuste da interpretação e dos dados sempre possa ser questionada quanto à validez dos raciocínios. Nesse caso da sociologia do crime, o que se demonstrou como determinante das falsas convicções anteriores, foi justamente o caso de raciocínios inválidos quanto à hipótese.
Também informação não controlada se define aquela com importância indevida atribuída à generalização a partir do que é suposto como evidência por ser o referencial "paroquiano" do estudioso - isto é, sem atenção à singularidade da cultura em que o significado em questão se insere, inversamente apenas atendo-se o "analista" aos valores da sua província.
=====
A crítica à ingenuidade da junção não esclarecida fato-valor é algo
intrinsecamente relacionado a nada menos que toda a produção teórica
relacionável a questões humanistas em geral e de "ciências humanas"
em particular desde o século XIX em diante. Mas podemos a essa crítica
especificar como um dos fatores componentes da “modernidade”, por ter
vindo a ser como que a espinha dorsal do próprio Estado liberal e democrático.
Ora,
toda antropologia positivista sócio-evolucionista que antecede o que é
consensual no século XX sobre a variação não hierárquica das sociedades, é
ingênuo nessa acepção precisa. Não é a toa que Comte e Marx não fossem adeptos
da democracia, mas prescrevessem como receita científica, à ditadura para
implantar as reformas que julgavam ser o progresso humano.
É praticamente consensual hoje em dia considerar o positivismo
sócio-evolucionista do século XIX como mera "racionalização"
(pseudo-racionalidade) da vontade de domínio imperialista que então era a nota
mais característica da Revolução industrial europeia. Muito da reação
pós-positivista veio de setores sociais já alertados para as temíveis
consequências intra-europeias desse caminho, temores fundados que ficaram
justificados pela duas guerras mundiais e pela concomitante epidemia
totalitária nazi-fascista.
A
condenação à morte dos dirigentes nazifascistas pelo tribunal de Nuremberg após
as guerras atuou como reforço à revolução industrial imperialista, como
se o totalitarismo houvesse sido episódio circunstancial. Porém hoje já se está
mais consciente de que não há evolução social num meio imperialista, que
significa autoritarismo tautologicamente.
Menos habitual que a crítica pós-positivista à mera possibilidade de um discurso totalizante da ciência, é notar que esse sócio-darwinismo positivista, que é uma extensão não
justificada à sociedade de princípios válidos apenas em biologia,
não foi uma extrapolação artificiosa, mas coerente com o modo como a evolução
era pensada na época de Darwin com relação ao assunto humanidade. O conceito hoje invalidado de
raça como uma totalidade de personalidade, cultura, sociedade e características
fenotípicas era vigente na própria biologia, assim como em todas as ciências
sociais positivistas. Pensava-se que uma raça era a adaptação funcional ao
ambiente localizado , e portanto que todas os traços humanos deveriam caber
como variações adaptativas.
A evolução como conceituada hoje pela genética lida apenas com traços
biológicos, não sociais, e mesmo assim o resultado real de um traço não é
pensável independente da interação indivíduo-meio. O conceito de interação elide a causalidade restrita a um ou a outro termo. Em relação ao homem, o meio
é obviamente social e a complexidade da atualização de um traço é indeslocável
- como vemos em Albert Jacquard - não algo previsível a priori. Até para os animais
não-humanos se criou o conceito de "dramatipo", que é a atuação de um
caráter na efetividade do exemplar atuante.
Mas a ingenuidade de indistinção fato-valor retorna num trecho de Nagel
selecionado por Gorman, que o exemplifica como patente a um simples olhar.
Conforme Gorman, para Nagel trata-se da redução da liberdade humana a uma
ordem causal assim como “a explicação científica procura descobrir a ordem
causal do universo”. Mas que se entende por liberdade não é sequer
tangenciado e o que se assevera em vez disso é agora que a ordem causal
implicaria “fatores condicionantes impessoais e objetivos” - não mais
somente nos termos solipsistas do conteúdo de decisão e crença. Em todo caso, o
objetivo da ciência seria discriminar as leis condicionantes em termos desses
fatores.
As
leis científicas sendo definidores da liberdade em geral em termos de sistemas
comportamentais, seriam também as de uma moralidade universal supondo que
qualquer indivíduo particular, se agir moral ou responsavelmente, acreditará que
está ou estará realmente agindo dentro da previsão do que um agente
abstrato moral normal faria a partir da virtual aplicação da lei. O que é um curioso documento da anulação da diferença suposta crucial de fenomenologia e cientificismo neoempirista - posto que essa redução da liberdade a suposta efetividade de um comportamento ideal-típico, é a característica da sociologia funcionalista primeiro weberiana, mas depois, pela via de A. Schutz, fenomenológica.
Assim, em todo caso, essa lei científica da moralidade universal não é a lei jurídica
socialmente estabelecida pela inter-relação governo-população civil
organizada. Como pode ser suposto fundamento da sociedade liberal como
supõe o "naturalismo" de Nagel?
Como vimos, o positivismo ortodoxo foi mais coerente quanto a isso, pois
acreditando numa lei científica integral dos comportamentos, assim quando ainda era possível fazê-lo ainda
que hoje saibamos que nada mais se fazia que um grande erro, raciocinou
logicamente que se trata de lei a ser imposta por uma tecnocracia, não emergindo
do ajuste das partes heterogêneas atuantes na sociedade civil.
Mas que "liberdade" é uma noção mal formada senão especificamos o que
pensamos ao assim expressar, é o que o argumento de alguma moralidade
científica não apreende ainda que se trate de algo tão básico. Na verdade o
terrorista tanto quanto o conservador podem crer estar agindo moral e
responsavelmente dentro da mesma situação. Um deles o crê, porém, não como
simples adesão do costume, e sim porque pensa estar ao corrente da explicação
científica – digamos, o marxismo – quanto ao mal social e seu remédio. Enquanto
o conservador não pensa que haja um mal social naquilo que ele mesmo perpetua
nos termos da hierarquia excludente de propriedade e status, ainda que pense
que a liberdade é assegurada pelo respeito ao dogma religioso. Além disso, a
"compreensão" que move um terrorista pode ser a mesma obtida por
alguém que não obstante, não se decide a agir como ele. O parâmetro da normalidade
se aplicaria a qual dentre esses três agentes, e em termos
de que sistema?
O
fato dessa objeção ao universalismo ser tão manejada devido a que é a
objeção mesma a defesa de todo horizonte democrático, é paradoxalmente
confrontado por um limite ocidental de apreender a heterogeneidade pensável.
O que se explica pelo fato de que o Ocidente não é pensável em si
mesmo como uma realidade discernível conceituável na heterogeneidade
efetiva, mas como a priori de uma identidade - isto é, identificação como processo patológico da psique, ao invés da libido - de cultura universal cuja regra de
construção é narrativa, não científica, disposta de tal modo que
frente ao pseudo-conceito deve estar contrastada só a profusão do
impensado "primitivo".
As misturas mais estranhas surgem como meios de manter a episteme na camisa de
força do "universal", e não surpreende que defensores da democracia
mesma tão contaditoriamente assim procedam.
É colocar o carro na frente dos bois, como se fala popularmente, querer estar
de posse de uma ciência ou saber universal para poder derivar leis
consideráveis democráticas na acepção de legítimas, ignorando-se a pluralidade
das opiniões e valores das pessoas realmente existente que compõe uma
sociedade.
Essa concepção crítica da ciência totalizante, é porém ela mesma científica, como na sociologia se tem salientado desde Barbara Wootton, Elias e outros sociólogos. A ciência social só fornece informações da pesquisa empírica, mas isso não é ao mesmo tempo ciência aplicada, e, quanto a esta, também não é ao mesmo tempo a ciência da aplicação. É à sociedade política em sua heteregneidade, que cabe, por meio dos governos realmente representativos, a decisão do que fazer com as informações empíricas. Por outro lado, relativamente a outros focos de ciência, cabe a eles a decisão sobre como utilizar as informações da ciência social empírica. Ao contrário do que pensava Comte, a sociologia como uma ciência normativa em relação às demais.
Mas também como já se contrapôs a Habbermas e outros semelhantes, a pretensão
de uma estipulação assim apenas pseudo-sancionaria grupos supostamente
representantes dos que não podem falar para defenderem suas concepções. Isso, porque Habermas propõe transferir o ônus das decisões da coexistência e direitos, da representação legal política à comunicação intersubjetiva ética.
O
próprio Nagel expressa que "a" ciência - ainda que ele sempre esteja
abstraindo uma unidade fictícia - é uma contínua atualização de perspectivas.
Não equaciona assim que é também multiplicidade teórica, de modo que especialmente em humanities, o que é real difere de uma teoria a outra. Como pode Nagel sugerir a partir disso, da provisoriedade de uma teoria científica, que a vida de cada um de nós seja pautada
apenas pelo que a ciência prescreve? E ele realmente o faz.
Por outro lado, um cientificista como Japiassu pode
raciocionar precisamente na mesma linha de Nagel. Japiassu dizia que toda
opinião é falsa, apenas por ser opinião e não ciência. Por essa ordem de
ideias, se alguém hoje opina de um modo que vai ser contemplado por algum ramo
da ciência somente amanhã, estaria errado ao mesmo tempo que certo. Não
havia nada mais criticável para Japiassu que as humanitites.
O fato de se poder sempre apontar com o dedo o princípio etnocêntrico nesses
casos vem de que o interessado nessa denunciação não é mais apenas alguma boa
consciência de ocidental, mas os cientistas sociais não naturalistas que atuam
na margem, especialmente na teoria
pós-colonial.
Nesta ainda, como se poderia esperar, há tentativas de se aplicar esquemas
sócio-evolucionistas como se pudessem livrar-nos do preconceito
etnocêntrico - assim como faz Homi Bhabha utilizando-se da psicanálise
freudo-lacaniana sem crítica alguma do seu paradigma.
Na neurociência da atualidade, o fracasso de Freud está sendo assumido como
apenas de meios, ao invés de, pelo contrário, por sua pretensão teleológica, o que comprometeu o projeto da teoria do inconsciente do mesmo modo que o marxismo. Changeux, como vimos, explicitou seu desejo de fornecer uma ética universal
com base agora no conhecimento do cérebro, mas sem deixar de expressar que isso
não é possível na atualidade da pesquisa.
O discurso geoegológico do Ocidente encontrou seu limite na atualidade do
pós-modernismo teórico onde as consequências do ex-centramento epistemológico
está em vigência, e não tentando ser dissimilado por algum expediente excuso.
Assim, o discurso geoegológico não tem agido mais característicamente pela
contradição explícita como nos tempos de Habermas e Weber, ainda que esses
passadismos continuem visíveis. Mais propriamente tem havido uma derrogação
como procedimento. A ciência de hoje não é mais o horizonte das apostas
universalistas, mas a conceitualmente impossível ciência de amanhã. Ao inverso do que tem sido a assunção pós-moderna da relatividade dos valores - que são relativos a culturas ao invés de únicos, não que não importam ao contrário do que parece pensar Bauman - por toda
parte a fantasia do futuro plenamente universal racionalizado tem sido
investida pela comunicação de massas e por toda propaganda ocidentalizante
de um significado em si "da" ciência.
Não é a toa que a televisão "por assinatura" não fale em mais nada de
tão ostensivo que não o extraterrestre que estará finalmente conhecido
nessa sociedade futura que ao mesmo tempo é o sentido do presente. Os
"ets" são a única diferença em relação ao todo humano - mas na
televisão por assinatura os programas sobre "ets (extraterrestres)
alardeiam até que já vivem em nosso planeta disfarçados em seres
humanos. Os programas são patrocinados em canais "científicos" como o
history channel. O ridículo desse assunto só estou colocando aqui pelas implicações, primeiro, do absurdo propagado, já que o et na televisão cara é vinculado como tema científico; segundo, porque a atribuição de ets disfarçados de seres humanos é retórica ostensivamente neonazi-fascista. O vídeo com essa idiotice, porém, é propagandeado pelos provedores que o colocam na barra de ofertas, como atrações da internet, barra que são justapostas pelo provedor na tela, ao lado de filmes que as pessoas escolhem para ver.
O que se demonstra assim é ambiguamente a sociedade de hoje e a
sociedade suposta de amanhã que no entanto implica somente o princípio
fantasioso do que se mantem hoje, além dessa ideologia, como o não
exequível para qualquer consideração validável - como uma sociedade universal e
ao mesmo tempo o único horizonte da "liberdade", afinal provisto na
efetividade pelo Ocidente. Obviamente por esse termo o que está sendo denotado é o oposto da liberdade como de escolhas pessoais.
A sociedade de hoje não conta para os projetos de instituições
patrocinadas como propaganda ocidental - de forma espantosa, fazem projetos em
instituições educacionais pagas, supostamente coerentes com o que será o
fantasiado futuro; e as formas compatíveis com a democracia na educação, como
projetos responsáveis e plenamente atualizados pelas humanities, são
desdenhados como parâmetro "antigo". Não obstante, os parâmetros curriculares são compatíveis com a democracia, o que tais instituições pagas desdenham. Não se trata aqui de fazer oposição à educação paga, mas de registrar que alguns referenciais são de óbvia infiltração nazi-fascista. Estes referenciais utilizam-se de profissionais que estão porém atuando também o nazi-fascismo na rede pública.
A irredutibilidade entre fascismo e democracia, é desconhecida nesses meios
assim como em todos aqueles guiados apenas pela comunicação de massas.
Alardeia-se como democráticas práticas que são de subsunção total do indivíduo
à sociedade, o que é apenas fascismo, e ainda essa sociedade
é conceito subsumindo-se apenas a veleidade de grupos particulares. A
democracia, devemos lembrar, é o contrário disso. A democracia é o regime de
garantia da inviolabilidade da autonomia - e nessa acepção, da liberdade - do
sujeito em nível privado, enquanto ele está de acordo com a observância da lei
prescrita em nível público.
======
Anexo: Lei e Sociedade na Antropologia atual
Algum meio da apreensão do estado dos estudos mais recente em ciência social sobre matéria política, creio ser necessário constar aqui, em contraste às opiniões fenomenológicas ou neopositivistas que acima examinamos.
Quando se estuda a criminalidade na sociologia, visando as sociedades
ocidentais da época atual do ponto de vista empírico, isto é, por meio de pesquisas
de dados e exame das taxas estatísticas sobre o crime, do mesmo modo que vimos
em Antropologia social, o que é revelado pode surpreender os paradigmas
ordenados segundo uma combinação de informação insuficiente.======
Anexo: Lei e Sociedade na Antropologia atual
Algum meio da apreensão do estado dos estudos mais recente em ciência social sobre matéria política, creio ser necessário constar aqui, em contraste às opiniões fenomenológicas ou neopositivistas que acima examinamos.
27/05
O estudo sobre "leis e sanções sociais" em J. Beattie ("Antropologia social") é apresentado como um tópico integrando o exame do tema "controle social". O outro tópico que compõe o tema sendo "organização política".
O manual de E. Willems ("Antropologia social") não apresenta esse seccionamento, contendo apenas uma entrada para "organização política". Assim ele não constituiu um foco específico para aquilo que Beattie definiu em termos de "tipos de instituições sociais e culturais que tendem a impedir as transgressões de normas e em termos das quais a ação é levada a efeito quando as normas são violadas".
A estratégia de Willems se justifica porque a sua preocupação foi mais com a questão de como a teoria ocidental pode entender a organização de chefia em sociedades aborígines: com ou sem instituições politicas separadas como funções específicas dentro da estrutura social.
O estudo sobre "leis e sanções sociais" em J. Beattie ("Antropologia social") é apresentado como um tópico integrando o exame do tema "controle social". O outro tópico que compõe o tema sendo "organização política".
O manual de E. Willems ("Antropologia social") não apresenta esse seccionamento, contendo apenas uma entrada para "organização política". Assim ele não constituiu um foco específico para aquilo que Beattie definiu em termos de "tipos de instituições sociais e culturais que tendem a impedir as transgressões de normas e em termos das quais a ação é levada a efeito quando as normas são violadas".
A estratégia de Willems se justifica porque a sua preocupação foi mais com a questão de como a teoria ocidental pode entender a organização de chefia em sociedades aborígines: com ou sem instituições politicas separadas como funções específicas dentro da estrutura social.
A aplicação de sanções sobre infratores de
normas apenas exemplificaria o modo como a autoridade é exercida, o que se
revela útil para entender o que ao ocidental parece um paradoxo. O fato de nessas
sociedades igualitárias quanto a status, portanto aparentemente sem instituições
políticas separadas, haver autoridade mas não status de prestígio da autoridade,
como é o caso entre outros exemplos, dos Cheyenne.
Willems insiste em que nesse caso o chefe é apenas o porta voz das decisões tomadas pelos membros da tribo, considerados responsáveis. Em ocasiões que requerem decisão coletiva porque solicitam a ação do grupo, por exemplo a organização das colheitas, reúnem-se esses membros em assembleia, e após o confronto das opiniões e o consenso obtido, o chefe sanciona a decisão para efeitos formais de obrigar os membros à colaborar na ação. A penalidade contra quem se furta à colaboração pode ser muito grave, mas variar conforme a tribo ou o caso, até a morte por espancamento se o infrator for jovem, numa certa tribo coberta por Willems.
Assim na estratégia de Willems, seria um mesmo item tudo o que decorre dessas decisões. Tanto sanções ou castigo pela perturbação da ordem, decorrente da infração de indivíduos sobre os direitos alheios ou a sociedade, quanto apenas subversão de deveres - como furtar-se da colaboração na colheita - cabem num mesmo foco do que eu designaria objeto do conselho deliberativo.
Beattie observou que realmente, nas sociedades igualitaristas, pode não haver distinção entre lei criminal e civil, ainda que haja oposição entre "ofensas que envolvem toda a comunidade e aquelas que envolvem indivíduos ou grupos dentro da comunidade".
Willems coloca assim a ênfase das sanções na opção pela interpretação das sociedades aborígines como sempre tendo poder político separado. Mas nessa interpretação há uma tendência a enfatizar as tribos que praticam, inversamente ao igualitarismo, o absolutismo. Como os Ankole da Uganda Ocidental, onde é em função de sua autoridade legal que a circunscrição do status do rei se conceitua: como poder de vida e de morte, aplicação de espancamento, maldição ou sevícias punitivas sobre os súditos infratores da ordem. Há limites ao poder do rei apenas da parte dos costumes ou obrigações a ele prescritas. Mas não interfere com o alcance absoluto do seu status.
Nesse caso podem haver grupos que funcionam como sociedades secretas na imanência da sociedade maior, tendentes a impedir o despotismo. Beattie cita o exemplo de grupos de camponeses negando serviços econômicos a um chefe opressor.
O foco parece ser, em ambos os autores, que a autoridade do rei, quando existe, é realmente referenciada como um valor da comunidade aborígine mas porque o rei encarna ele mesmo os valores comunais. E assim, se o rei rompe com as expectativas prescritas - por negligência ou exigência opressiva de sacrifícios além do limite tolerado - o sistema deixa de fazer sentido, e há compreensão da legitimidade de atos de rebelião.
Os camponeses do exemplo de Beattie deixaram de prestar serviços porque os sacrifícios humanos que o rei exigia normalmente passaram a um número inesperado de vítimas, incidindo ainda somente sobre pessoas da classe camponesa.
Segundo Willems, quando o chefe tem poderes limitados, sses grupos se organizam contra determinadas associações despóticas. Como os Egbo na África ocidental, que impedem o despotismo e controle dos mercadores.
Uma variável importante é o aspecto das funções religiosas. A separação de Nietzsche entre sociedades com ou sem classe sacerdotal distinta se esfuma, pois em sociedades aborígines a religião pode não ser distinta do plano dos costumes.
O prestígio de associações ou pessoas cuja função é ligada ao sobrenatural é muito mais variável do que Nietzsche pensava, podendo interferir com o poder do rei, ou, inversamente, podendo haver "hierocracia", como exercício do controle imperativo por chefes deificados, como em Samoa.
A estratégia de Willems se torna mais compreensível porque a decisão judiciária, servindo à ilustração do ethos que secunda a atribuição da autoridade, permite mostrar aspectos ligados à mudança social. Auxilia o exame de exemplos em que houve transição de um ethos, digamos, igualitarista, a um outro de maior integração de funções, com segregação de aparatos institucionais como concentração permanente do poder.
Segundo Willems, a coalescência de burocracias administrativas, policiais ou chefias supremas, devido a mudanças conceituáveis, geralmente tem a ver com a segmentação de grupos desde um conjunto maior anterior. A autonomia recém-conquistada do grupo segregado tende a se desdobrar em instituições que a corporificam. Assim, esses não são mais consideráveis "segmentos" do conjunto anterior, mas comunidades autônomas, cujo corpo de leis e tribunais, sistemas militares, legislativos e de chefias se definem coerentemente.
Quanto mais a integração afeta a estrutura de parentesco a que se limitava toda atribuição de autoridade anteriormente, mais se tona esperável um conflito entre o costume do parentesco e a lei sancionada pelos aparatos da organização social. Willems estudou o exemplo dos Kalinga, cujo comportamento individualístico não era apenas, como entre os Cheyenne, um ethos da virtude livre, mas abrangia a atribuição de prestígio por homicídio, considerado meio de obter pessoalmente benefícios sobrenaturais e sociais. Quanto mais assassinatos um kalinga cometia, mais honra supunha-se que ele desfrutava por parte da tribo.
A lei da organização social, pelo contrário, foi prescrita contra o assassinato, provavelmente porque a escalada da violência Kalinga havia chegado a um ponto intolerável a partir do fato de que as famílias não estavam mais separadas por pacto simbólico, tal que o assassinato de pessoas de outras famílias em nada afetava o grupo familiar do assassino, exceto pelo aspecto da vingança virtual. Mas esse parecia ser apenas um atrativo para mais assassinatos honrosos, ao invés de um limite, até que a integração, pelo que o grupo se tornou nocionalmente o conjunto das famílias, tornou disfuncional o costume, que no entanto estava firmemente enraizado na personalidade kalinga.
Willems estuda assim as instituições criadas para resolver o conflito kalinga, como a figura de "pangats" atuando como advogados de parte a parte. O importante nesse registro é que assim o costume do assassinato se torna evidentemente oposto à lei contra assassinato. A cisão de privado e público está assim definida mesmo em sociedades "simples", isto é, a que antes se designava "primitiva".
Mais geralmente, Willems noticia o recurso entre sociedades aborígines, dos pactos, como o conhecido "cachimbo da paz". São firmados entre sociedades aborígines, criando autoridades que se fazem fiadores do apaziguamento desses encadeamentos sistemáticos de crimes e vinganças. Barton especialmente estudou um conjunto de quarenta pactos firmados desse tipo.
Um outro aspecto da coalescência de chefia institucionalizada é a integração temporária, a qual pode se relacionar com os costumes religiosos. Há instituições que atuam somente em função do calendário, religioso ou de atividades econômicas como a caça na estação apropriada, ligadas ainda ao fato dessas tribos serem nômades.
Há atribuição institucionalizada assim entre os Cheyenne, atuando durante a sua temporada de caça coletiva. O "guarda do Taime", possuidor da boneca da dança do sol entre os Kiowa, se torna chefe formal da tribo enquanto dura a festa anual da dança do sol. Seu poder não interfere com os dos chefes respeitados habitualmente, mas estes são limitados nessa ocasião.
O poder do chefe nesse exemplo se assemelha aquele caso em que não havendo distinção de status, contudo somente pelo fato de haver uma guerra o seu papel é investido de um aspecto absoluto de autoridade. Ambos os referenciais de organização da chefia tem um relevo circunstancial. Se compreendemos o papel militar do chefe em caso de guerra, podemos notar que durante a festa mais de mil guerreiros excitados se reúnem, e assim parece ser sentido como necessário uma força de controle contra a exacerbação de brigas.
Em todos esses exemplos estudados além do estado de guerra, fica patente em Willems a conexão temática entre a progressão da ordem em instituições definidas além do parentesco e a necessidade da aplicação de castigo ou sanção como algo mais do que um conceito abstrato. Algo que se determina variavelmente em função do multiformismo das situações concretas.
Assim em Tikopia, como observa Willems, o poder dos chefes se institucionaliza no fono anual, sua fala em público, e o teor de sua comunicação não é apenas religioso ainda que se expresse como porta-voz dos deuses. Mas expressa em linguagem metafórica todo o código moral e legal, versando sobre ordem parcimoniosa do uso dos suprimentos, disputas sobre limites, sobre o roubo, relações de respeito, inimizades, posse de terra, ordem pública e controle da natalidade para impedir superpopulação.
O controle da natalidade foi referenciado por Margaret Mead como um aspecto de deliberação comunal entre os Arapesh. Na Nova Guiné o controle é pós-natal, a deliberação ocorrendo tão logo ocorre o parto. Se a criança recém-nascida é considerada demasiado peso para a família, não se a lava deixando-a abandonada para morrer, mas se é aceita então é lavada e tratada convenientemente. A deliberação geralmente envolve a comunidade, ou ao menos o conjunto da família, não apenas a mãe e o pai. Ao avistar pequenas caixas descendo o rio, os habitantes das várias tribos sabem que se trata do meio comum de livrar-se de nascituros indesejados. Porém a generalidade desse costume não define o modo do tratamento das crianças que vivem. Os Arapesh, de temperamento gentil e organizado, são extremamente bondosos com elas, vivem de fato em função de suas crianças, enquanto os Mundugumor, extremamente agressivos e "caçadores de cabeças", não tratam bem as crianças da tribo. Os pais Mundugumor as usam como meios de sua própria rivalidade mútua.
A estratégia de Willems tem a ver com o fato de que o seu tema real é a defesa da noção do Estado existindo em todas as sociedades, mesmo as igualitaristas quanto a status e aparentemente sem discernimento separado de instituições políticas. Assim, se a lei é variável e a definição do que é ou não transgressivo não só depende da cultura local como ainda da própria estruturação da chefia atribuível na cultura, o dado constante é o haver da lei, logo, dessa noção que ao revestir-se de instituições separadas para sua propagação e observância, logo todos nós conceituamos como Estado. Se Willems fala agora de um funcionalismo universalista quanto ao Estado, realmente é uma posição nova, não atribuível ao funcionalismo como um todo, e de fato mais relacionado à informação da pesquisa empírica do que ao formalismo funcional como cartografia da integração das ações sociais.
Willems define essa posição como funcionalista, já que são os estruturalistas que só atribuem Estado à razão de ser dos elementos constitutivos institucionais existentes, e assim as sociedades igualitaristas seriam sem Estado. Mas Willems expressamente observa que defende sua posição não por ser a funcionalista, e sim porque é a que ele considera coerente com o conteúdo das pesquisas empíricas. Na verdade, a posição do Estado como universal das sociedades, que defendo também, porém lembrando que "Estado" é nessa atribuição apenas a existência de leis irredutíveis a costumes, não é funcionalista propriamente. Pois, o funcionalismo radical da época de Weber por exemplo, praticava a oposição de comunidade (gemeinschaft) e sociedade (geselschaft) para respectivamente os estados primitivo e moderno-ocidental. Assim, não só o primitivo não tem Estado no funcionalismo, como não tem nem mesmo "sociedade". Se Willems fala de uma posição universalista quanto ao Estado em termos de funcionalismo, essa realmente é uma posição nova, e não corresponde ao funcionalismo tradicional, além de na verdade ser mais relacionável à informação da pesquisa empírica do que ao formalismo funcional que cartografa a integração das ações da totalidade comunal-social. Por outro lado, esse formalismo é expressamente rejeitado na antropologia de Lévi-Strauss, que não lida diretamente com a totalidade pressuposta, mas apenas com estruturas definidas como por exemplo o sistema de parentesco.
Willems insiste em que nesse caso o chefe é apenas o porta voz das decisões tomadas pelos membros da tribo, considerados responsáveis. Em ocasiões que requerem decisão coletiva porque solicitam a ação do grupo, por exemplo a organização das colheitas, reúnem-se esses membros em assembleia, e após o confronto das opiniões e o consenso obtido, o chefe sanciona a decisão para efeitos formais de obrigar os membros à colaborar na ação. A penalidade contra quem se furta à colaboração pode ser muito grave, mas variar conforme a tribo ou o caso, até a morte por espancamento se o infrator for jovem, numa certa tribo coberta por Willems.
Assim na estratégia de Willems, seria um mesmo item tudo o que decorre dessas decisões. Tanto sanções ou castigo pela perturbação da ordem, decorrente da infração de indivíduos sobre os direitos alheios ou a sociedade, quanto apenas subversão de deveres - como furtar-se da colaboração na colheita - cabem num mesmo foco do que eu designaria objeto do conselho deliberativo.
Beattie observou que realmente, nas sociedades igualitaristas, pode não haver distinção entre lei criminal e civil, ainda que haja oposição entre "ofensas que envolvem toda a comunidade e aquelas que envolvem indivíduos ou grupos dentro da comunidade".
Willems coloca assim a ênfase das sanções na opção pela interpretação das sociedades aborígines como sempre tendo poder político separado. Mas nessa interpretação há uma tendência a enfatizar as tribos que praticam, inversamente ao igualitarismo, o absolutismo. Como os Ankole da Uganda Ocidental, onde é em função de sua autoridade legal que a circunscrição do status do rei se conceitua: como poder de vida e de morte, aplicação de espancamento, maldição ou sevícias punitivas sobre os súditos infratores da ordem. Há limites ao poder do rei apenas da parte dos costumes ou obrigações a ele prescritas. Mas não interfere com o alcance absoluto do seu status.
Nesse caso podem haver grupos que funcionam como sociedades secretas na imanência da sociedade maior, tendentes a impedir o despotismo. Beattie cita o exemplo de grupos de camponeses negando serviços econômicos a um chefe opressor.
O foco parece ser, em ambos os autores, que a autoridade do rei, quando existe, é realmente referenciada como um valor da comunidade aborígine mas porque o rei encarna ele mesmo os valores comunais. E assim, se o rei rompe com as expectativas prescritas - por negligência ou exigência opressiva de sacrifícios além do limite tolerado - o sistema deixa de fazer sentido, e há compreensão da legitimidade de atos de rebelião.
Os camponeses do exemplo de Beattie deixaram de prestar serviços porque os sacrifícios humanos que o rei exigia normalmente passaram a um número inesperado de vítimas, incidindo ainda somente sobre pessoas da classe camponesa.
Segundo Willems, quando o chefe tem poderes limitados, sses grupos se organizam contra determinadas associações despóticas. Como os Egbo na África ocidental, que impedem o despotismo e controle dos mercadores.
Uma variável importante é o aspecto das funções religiosas. A separação de Nietzsche entre sociedades com ou sem classe sacerdotal distinta se esfuma, pois em sociedades aborígines a religião pode não ser distinta do plano dos costumes.
O prestígio de associações ou pessoas cuja função é ligada ao sobrenatural é muito mais variável do que Nietzsche pensava, podendo interferir com o poder do rei, ou, inversamente, podendo haver "hierocracia", como exercício do controle imperativo por chefes deificados, como em Samoa.
A estratégia de Willems se torna mais compreensível porque a decisão judiciária, servindo à ilustração do ethos que secunda a atribuição da autoridade, permite mostrar aspectos ligados à mudança social. Auxilia o exame de exemplos em que houve transição de um ethos, digamos, igualitarista, a um outro de maior integração de funções, com segregação de aparatos institucionais como concentração permanente do poder.
Segundo Willems, a coalescência de burocracias administrativas, policiais ou chefias supremas, devido a mudanças conceituáveis, geralmente tem a ver com a segmentação de grupos desde um conjunto maior anterior. A autonomia recém-conquistada do grupo segregado tende a se desdobrar em instituições que a corporificam. Assim, esses não são mais consideráveis "segmentos" do conjunto anterior, mas comunidades autônomas, cujo corpo de leis e tribunais, sistemas militares, legislativos e de chefias se definem coerentemente.
Quanto mais a integração afeta a estrutura de parentesco a que se limitava toda atribuição de autoridade anteriormente, mais se tona esperável um conflito entre o costume do parentesco e a lei sancionada pelos aparatos da organização social. Willems estudou o exemplo dos Kalinga, cujo comportamento individualístico não era apenas, como entre os Cheyenne, um ethos da virtude livre, mas abrangia a atribuição de prestígio por homicídio, considerado meio de obter pessoalmente benefícios sobrenaturais e sociais. Quanto mais assassinatos um kalinga cometia, mais honra supunha-se que ele desfrutava por parte da tribo.
A lei da organização social, pelo contrário, foi prescrita contra o assassinato, provavelmente porque a escalada da violência Kalinga havia chegado a um ponto intolerável a partir do fato de que as famílias não estavam mais separadas por pacto simbólico, tal que o assassinato de pessoas de outras famílias em nada afetava o grupo familiar do assassino, exceto pelo aspecto da vingança virtual. Mas esse parecia ser apenas um atrativo para mais assassinatos honrosos, ao invés de um limite, até que a integração, pelo que o grupo se tornou nocionalmente o conjunto das famílias, tornou disfuncional o costume, que no entanto estava firmemente enraizado na personalidade kalinga.
Willems estuda assim as instituições criadas para resolver o conflito kalinga, como a figura de "pangats" atuando como advogados de parte a parte. O importante nesse registro é que assim o costume do assassinato se torna evidentemente oposto à lei contra assassinato. A cisão de privado e público está assim definida mesmo em sociedades "simples", isto é, a que antes se designava "primitiva".
Mais geralmente, Willems noticia o recurso entre sociedades aborígines, dos pactos, como o conhecido "cachimbo da paz". São firmados entre sociedades aborígines, criando autoridades que se fazem fiadores do apaziguamento desses encadeamentos sistemáticos de crimes e vinganças. Barton especialmente estudou um conjunto de quarenta pactos firmados desse tipo.
Um outro aspecto da coalescência de chefia institucionalizada é a integração temporária, a qual pode se relacionar com os costumes religiosos. Há instituições que atuam somente em função do calendário, religioso ou de atividades econômicas como a caça na estação apropriada, ligadas ainda ao fato dessas tribos serem nômades.
Há atribuição institucionalizada assim entre os Cheyenne, atuando durante a sua temporada de caça coletiva. O "guarda do Taime", possuidor da boneca da dança do sol entre os Kiowa, se torna chefe formal da tribo enquanto dura a festa anual da dança do sol. Seu poder não interfere com os dos chefes respeitados habitualmente, mas estes são limitados nessa ocasião.
O poder do chefe nesse exemplo se assemelha aquele caso em que não havendo distinção de status, contudo somente pelo fato de haver uma guerra o seu papel é investido de um aspecto absoluto de autoridade. Ambos os referenciais de organização da chefia tem um relevo circunstancial. Se compreendemos o papel militar do chefe em caso de guerra, podemos notar que durante a festa mais de mil guerreiros excitados se reúnem, e assim parece ser sentido como necessário uma força de controle contra a exacerbação de brigas.
Em todos esses exemplos estudados além do estado de guerra, fica patente em Willems a conexão temática entre a progressão da ordem em instituições definidas além do parentesco e a necessidade da aplicação de castigo ou sanção como algo mais do que um conceito abstrato. Algo que se determina variavelmente em função do multiformismo das situações concretas.
Assim em Tikopia, como observa Willems, o poder dos chefes se institucionaliza no fono anual, sua fala em público, e o teor de sua comunicação não é apenas religioso ainda que se expresse como porta-voz dos deuses. Mas expressa em linguagem metafórica todo o código moral e legal, versando sobre ordem parcimoniosa do uso dos suprimentos, disputas sobre limites, sobre o roubo, relações de respeito, inimizades, posse de terra, ordem pública e controle da natalidade para impedir superpopulação.
O controle da natalidade foi referenciado por Margaret Mead como um aspecto de deliberação comunal entre os Arapesh. Na Nova Guiné o controle é pós-natal, a deliberação ocorrendo tão logo ocorre o parto. Se a criança recém-nascida é considerada demasiado peso para a família, não se a lava deixando-a abandonada para morrer, mas se é aceita então é lavada e tratada convenientemente. A deliberação geralmente envolve a comunidade, ou ao menos o conjunto da família, não apenas a mãe e o pai. Ao avistar pequenas caixas descendo o rio, os habitantes das várias tribos sabem que se trata do meio comum de livrar-se de nascituros indesejados. Porém a generalidade desse costume não define o modo do tratamento das crianças que vivem. Os Arapesh, de temperamento gentil e organizado, são extremamente bondosos com elas, vivem de fato em função de suas crianças, enquanto os Mundugumor, extremamente agressivos e "caçadores de cabeças", não tratam bem as crianças da tribo. Os pais Mundugumor as usam como meios de sua própria rivalidade mútua.
A estratégia de Willems tem a ver com o fato de que o seu tema real é a defesa da noção do Estado existindo em todas as sociedades, mesmo as igualitaristas quanto a status e aparentemente sem discernimento separado de instituições políticas. Assim, se a lei é variável e a definição do que é ou não transgressivo não só depende da cultura local como ainda da própria estruturação da chefia atribuível na cultura, o dado constante é o haver da lei, logo, dessa noção que ao revestir-se de instituições separadas para sua propagação e observância, logo todos nós conceituamos como Estado. Se Willems fala agora de um funcionalismo universalista quanto ao Estado, realmente é uma posição nova, não atribuível ao funcionalismo como um todo, e de fato mais relacionado à informação da pesquisa empírica do que ao formalismo funcional como cartografia da integração das ações sociais.
Willems define essa posição como funcionalista, já que são os estruturalistas que só atribuem Estado à razão de ser dos elementos constitutivos institucionais existentes, e assim as sociedades igualitaristas seriam sem Estado. Mas Willems expressamente observa que defende sua posição não por ser a funcionalista, e sim porque é a que ele considera coerente com o conteúdo das pesquisas empíricas. Na verdade, a posição do Estado como universal das sociedades, que defendo também, porém lembrando que "Estado" é nessa atribuição apenas a existência de leis irredutíveis a costumes, não é funcionalista propriamente. Pois, o funcionalismo radical da época de Weber por exemplo, praticava a oposição de comunidade (gemeinschaft) e sociedade (geselschaft) para respectivamente os estados primitivo e moderno-ocidental. Assim, não só o primitivo não tem Estado no funcionalismo, como não tem nem mesmo "sociedade". Se Willems fala de uma posição universalista quanto ao Estado em termos de funcionalismo, essa realmente é uma posição nova, e não corresponde ao funcionalismo tradicional, além de na verdade ser mais relacionável à informação da pesquisa empírica do que ao formalismo funcional que cartografa a integração das ações da totalidade comunal-social. Por outro lado, esse formalismo é expressamente rejeitado na antropologia de Lévi-Strauss, que não lida diretamente com a totalidade pressuposta, mas apenas com estruturas definidas como por exemplo o sistema de parentesco.
Beattie se atem mais ao aspecto histórico da antropologia social, detendo-se no
modo como o preconceito da sociedade aborígine como sendo sem lei - e não tratando a lei como já
sendo a questão do Estado - foi superado só recentemente. Como uma posição
posterior a Radcliffe Brown que ainda defendia o contrário.
Essa é uma exposição importante, ainda que Beattie esteja interessado em mostrar apenas como a nossa atualidade é irredutível à antropologia positivista. Na verdade é o cerne da ambiguidade que estamos referenciando quanto ao funcionalismo - anterior a Lévi-Strauss e ao rise estruturalista. Por um lado, o funcionalismo de Malinowski, Weber, e outros, já sabia que não havia promiscuidade primitiva, que todas as sociedades tem leis de casamento e parentesco; por outro lado, essas leis eram comunitariamente o oposto da noção de lei moderno-ocidental, restrita na definição funcional, tautologicamente a ação racional-legal ou burocrática. A comunidade primitiva só podia praticar a ação tradicional, a liderança carismática, etc. Além disso, toda crítica ao capitalismo e ao imperialismo ocidental nessa época se deslocou consequentemente, como crítica da sociedade burocrática - o que resultou na ambiguidade mais notável, já que ao mesmo tempo a mudança do tradicional ao burocrático definia o desenvolvimento e a racionalidade.
Aqui podemos notar que a teoria do contrato social de Locke a Rousseau, por exemplo, depende inteiramente da noção de "estado de natureza" como condição de ausência de lei nas sociedades selvagens que assim, por serem mais simples, na acepção de terem menos elementos formativos, por um lado não seriam sociedades mas aglomerados de pessoas sem vínculo além da circunstância. Por outro lado seriam a origem da sociedade como aglomerações complexas e estruturadas institucionalmente.
Essa esquematização do simples ao complexo persiste na antropologia positivista, quando já não se pode no entanto falar do aborígine como ausência de sociedade. Mas se pensava no positivismo que a do aborígine era uma sociedade como a dos animais, ou seja, movida institivamente, enquanto a civilização seria resultante da estrutura progressiva das capacidades psíquicas conquistadas pelo acréscimo evolutivo das técnicas.
Entre um homem primitivo e um civilizado haveria, como supunha Darwin, mais distância do que entre animais de espécies distintas. O primitivo darwinista, e depois spenceriano, ao contrário do bom selvagem rousseauísta, tinha o instinto do sangue e da violência, enquanto a evolução psicossocial implicava a coalescência dos sentimentos de legitimidade e solidariedade supostos indispensáveis ao funcionamento de sociedades evoluídas com organização de Estado.
O cerne do argumento de Locke e Rousseau é a ausência de mediação entre litigantes num conflito em se tratando de sociedades primitivas. Assim um estado de guerra se superpõe ao estado pacífico do bom selvagem na natureza, quando alguém ou um grupo se decide a apropriar-se do produto do trabalho de outrem. O estado de guerra é então superado pelo estado de sociedade, quando todos convencionam delegar poderes aos magistrados que atuarão segundo a lei pública, independente de identificar-se com qualquer das duas partes do litígio. Mas assim o estado de sociedade está repondo pelo artifício do pacto social, o estado natural em que todos são livres e autônomos, se bem que agora a liberdade dependa da instituição que coíbe a "guerra" dentro da sociedade, isto é, a "dominação" ou privilégio.
Essa é uma exposição importante, ainda que Beattie esteja interessado em mostrar apenas como a nossa atualidade é irredutível à antropologia positivista. Na verdade é o cerne da ambiguidade que estamos referenciando quanto ao funcionalismo - anterior a Lévi-Strauss e ao rise estruturalista. Por um lado, o funcionalismo de Malinowski, Weber, e outros, já sabia que não havia promiscuidade primitiva, que todas as sociedades tem leis de casamento e parentesco; por outro lado, essas leis eram comunitariamente o oposto da noção de lei moderno-ocidental, restrita na definição funcional, tautologicamente a ação racional-legal ou burocrática. A comunidade primitiva só podia praticar a ação tradicional, a liderança carismática, etc. Além disso, toda crítica ao capitalismo e ao imperialismo ocidental nessa época se deslocou consequentemente, como crítica da sociedade burocrática - o que resultou na ambiguidade mais notável, já que ao mesmo tempo a mudança do tradicional ao burocrático definia o desenvolvimento e a racionalidade.
Aqui podemos notar que a teoria do contrato social de Locke a Rousseau, por exemplo, depende inteiramente da noção de "estado de natureza" como condição de ausência de lei nas sociedades selvagens que assim, por serem mais simples, na acepção de terem menos elementos formativos, por um lado não seriam sociedades mas aglomerados de pessoas sem vínculo além da circunstância. Por outro lado seriam a origem da sociedade como aglomerações complexas e estruturadas institucionalmente.
Essa esquematização do simples ao complexo persiste na antropologia positivista, quando já não se pode no entanto falar do aborígine como ausência de sociedade. Mas se pensava no positivismo que a do aborígine era uma sociedade como a dos animais, ou seja, movida institivamente, enquanto a civilização seria resultante da estrutura progressiva das capacidades psíquicas conquistadas pelo acréscimo evolutivo das técnicas.
Entre um homem primitivo e um civilizado haveria, como supunha Darwin, mais distância do que entre animais de espécies distintas. O primitivo darwinista, e depois spenceriano, ao contrário do bom selvagem rousseauísta, tinha o instinto do sangue e da violência, enquanto a evolução psicossocial implicava a coalescência dos sentimentos de legitimidade e solidariedade supostos indispensáveis ao funcionamento de sociedades evoluídas com organização de Estado.
O cerne do argumento de Locke e Rousseau é a ausência de mediação entre litigantes num conflito em se tratando de sociedades primitivas. Assim um estado de guerra se superpõe ao estado pacífico do bom selvagem na natureza, quando alguém ou um grupo se decide a apropriar-se do produto do trabalho de outrem. O estado de guerra é então superado pelo estado de sociedade, quando todos convencionam delegar poderes aos magistrados que atuarão segundo a lei pública, independente de identificar-se com qualquer das duas partes do litígio. Mas assim o estado de sociedade está repondo pelo artifício do pacto social, o estado natural em que todos são livres e autônomos, se bem que agora a liberdade dependa da instituição que coíbe a "guerra" dentro da sociedade, isto é, a "dominação" ou privilégio.
Esse ponto, retomado por Beattie como ainda
o cerne da polêmica nos tempos de Radcliffe Brown, era agora relativo ao tópico
preciso da vingança de sangue.
A essa prática parece poder se reduzir o ajuste de conflito e sanção nas sociedades mais simples que se conhecem. Onde não há, na concepção de Beattie, nada que se interponha à concepção elementar de que “todos os erros são erros contra pessoas particulares ou grupos de pessoas, não contra o 'Estado' ou 'a lei' enquanto corpo formal de regras decretadas”.
Mas o que se fez ver, como também a posição que Beattie defende, é que a vingança de sangue é uma prática de retaliação constante e recíproca. Beattie a equipara assim ao caso dos camponeses que se negam a prestar serviços ao chefe opressor. Entre eles, como grupo discriminado, e o chefe absoluto, não há nenhuma mediação, senão o sentimento de justiça, de que um dever mútuo não foi cumprido por uma das partes.
Então Beattie assinala como uma concepção coerente e atual que a vingança de sangue é uma forma de lei, e isso é apoiado pelo fato de que mesmo em nossa sociedade há várias sanções negativas organizadas além da lei como instituição do código penal – por exemplo, quando um médico ou advogado tem o nome removido do Registro médico ou da Ordem dos advogados por terem comprovadamente quebrado a ética profissional.
A essa prática parece poder se reduzir o ajuste de conflito e sanção nas sociedades mais simples que se conhecem. Onde não há, na concepção de Beattie, nada que se interponha à concepção elementar de que “todos os erros são erros contra pessoas particulares ou grupos de pessoas, não contra o 'Estado' ou 'a lei' enquanto corpo formal de regras decretadas”.
Mas o que se fez ver, como também a posição que Beattie defende, é que a vingança de sangue é uma prática de retaliação constante e recíproca. Beattie a equipara assim ao caso dos camponeses que se negam a prestar serviços ao chefe opressor. Entre eles, como grupo discriminado, e o chefe absoluto, não há nenhuma mediação, senão o sentimento de justiça, de que um dever mútuo não foi cumprido por uma das partes.
Então Beattie assinala como uma concepção coerente e atual que a vingança de sangue é uma forma de lei, e isso é apoiado pelo fato de que mesmo em nossa sociedade há várias sanções negativas organizadas além da lei como instituição do código penal – por exemplo, quando um médico ou advogado tem o nome removido do Registro médico ou da Ordem dos advogados por terem comprovadamente quebrado a ética profissional.
O próprio Radcliffe-Brown conceituou a “sanção satírica” como exposição ao
ridículo público, em termos de algo que é sentido como punição por vezes mais potente do
que o pagamento prescrito de uma multa o seria.
A partir daí Beattie examina as formas de penalidade conhecidas em sociedades
aborígines – tais como o incendiamento de uma casa, o ostracismo, ou o
equivalente do king'ole dos kamba quenianos: com aprovação dos mais
velhos faz-se o linchamento de bruxos cujas atividades se
supõem terem sido demasiado
lesivas ao queixoso.
Beattie mostra assim que o tema pode ser tratado mesmo em Antropologia social, como estritamente jurídico e de forma independente da análise do sistema do poder político.
======lesivas ao queixoso.
Beattie mostra assim que o tema pode ser tratado mesmo em Antropologia social, como estritamente jurídico e de forma independente da análise do sistema do poder político.
Em sociologia, a pesquisa das taxas de crime revelou que todas as generalizações sobre situações de predisposição ao crime eram erradas, não coerentes com o que as taxas revelaram como os habituais protagonistas do comportamento criminoso. Em vez de situações predispostas, houve apenas um incremento percentual da firma americana como habitual praticante de crimes - ou seja, por razões utilitárias e não por situações de origem como pobreza, etnia, ambiente social, pais separados, etc. A única constante situacional de grupo relacionável ainda às taxas, foi o baixo "quosciente intelectual", isto é, estados próximos da imbecilidade.
A informação insuficiente é a que se faz por fontes não controladas à base de hipótese explicitada de modo que o ajuste da interpretação e dos dados sempre possa ser questionada quanto à validez dos raciocínios. Nesse caso da sociologia do crime, o que se demonstrou como determinante das falsas convicções anteriores, foi justamente o caso de raciocínios inválidos quanto à hipótese.
Também informação não controlada se define aquela com importância indevida atribuída à generalização a partir do que é suposto como evidência por ser o referencial "paroquiano" do estudioso - isto é, sem atenção à singularidade da cultura em que o significado em questão se insere, inversamente apenas atendo-se o "analista" aos valores da sua província.
Beattie
enfatizou que em Antropologia social esse referencial "paroquiano" foi denunciado
não só como o erro metódico do positivismo oitocentista, mas de um modo geral
como a falácia antropológica mais básica, de que como ciência humana a
Antropologia Social faz a crítica.
O exame que vimos desenvolvendo mostrou que ao mesmo tempo sendo praticada performaticamente, a ambivalência ou ambiguidade foi tematizada de modo negativo ou positivo como algo sempre relacionável à problemática cultural desde a modernidade. Mas esses encaminhamentos não chegam a conceituar uma dualidade inerente, como Gorman tencionou explicitar ("A visão dual", ed. Zahar, p. 188).
Entre o marxismo ortodoxo e a fenomenologia que instrumentou o marxismo em sua versão dita humanista, Gorman situou duas "metodologias convincentes" que podem igualmente facilitar "o exame e explicação dos fenômenos sociais". Mas de fato, segundo ele, "nenhuma convence" a partir do exterior sobre seus próprios parâmetros teóricos. Essa mesma observação abrange o terceiro vetor da análise de Gorman, que aqui examinamos como o do naturalismo cientificista (neoempirismo). Temos assim campos explicativos imanentes, cada um pretendendo-se totalizante do horizonte fenomênico, mas tecendo-se a partir de uma crítica dos demais que não pôde se demonstrar final.
A questão crucial na concepção de Robert Gorman, porém, é que um amálgama assim designado humanizante (existencial-fenomenológico) do marxismo, esbarra com o fato de que o marxismo em si é epistemologicamente objetivista. O verdadeiro impasse da ciência estaria residindo entre subjetivismo de signo humanizante e objetivismo auto-posicionado como anti-idealista e só assim emancipador.
A fenomenologia marxista como o existencialismo sartriano e a Escola de Milão liderada por Enzo Paci, se torna questionada por Gorman na medida que, como ele diz de Paci, quer manter uma "análise fenomenológica da subjetividade transcendental como se os resultados fossem, em algum sentido objetivo, intersubjetivamente válidos" (p. 182). Mas como para Paci, também para Sartre, em seu "enfoque da ação autodefinida" o que resulta é uma "ambiguidade desorientadora", ou mais precisamente um tipo de "esquizofrenia intelectual" (p. 184).
Vemos que o tópico não é uma digressão em relação ao que vimos expondo, se puder ser demonstrado que os encaminhamentos habituais examinados foram manter-se precisa e esquematicamente entre ambos, objetividade/ subjetividade, sem pretender renunciar a nenhum dos dois mas sendo que não são realmente conciliáveis. A impossibilidade dessa renúncia é o que espreita seja a rejeição da ruptura estrutural em relação aos intuitos da fenomenologia-hermenêutica, seja a recusa de confrontar o pós-estruturalismo como parâmetro objetivo e ao mesmo tempo diverso do marxismo.
Assim, obter um esquema geral da ambiguidade epistemologicamente subjacente a todo o percurso da filosofia política - desdobrada então como "ontologia social" - no período de mutação entre o modernismo e o pós, se torna hoje importante.
Por um lado, conforme Gorman, Paci intenta complementar Husserl, que sempre teria tentado atingir "as coisas em si percebidas subjetivamente em troca de simples representações sociais delas" (p. 182), mas sem poder assim de modo algum "descobrir os critérios de objetividade na sociedade", ainda que lográ-lo correspondesse ao paciano intuito.
Por outro lado, Gorman considera impossível discernir qual das duas tendências expressas na linguagem sartriana realmente compacta-se como sua filosofia única. O dilema inteiro expresso na afirmação de Sartre de que se "só a única realidade prática é dialética, a força motriz de tudo é a ação individual". Mas o segundo período da frase resultaria num subjetivismo puro, enquanto o primeiro induz, conforme Gorman, a que "o partido institucionalizado é, e deve ser, onipotente".
Aqui a ambiguidade entre objetivo e subjetivo se desdobra num questionamento do conceito fenomenológico uma vez tornado marxista, da intersubjetividade. Pois ele determina, desde a perspectiva solipsista e/ou analítica do teórico, aquilo que seria a subjetividade dos outros - tanto como aquilo que é suposto realidade em si.
A confusão de conceito puro e realidade em si é, em princípio, o que Gorman atribui como visão dual ao próprio Husserl, assim como ao primeiro dentre os teóricos sociais que almejaram aplicar Husserl à sua área de investigação, Alfred Schutz: "A visão dual que cegou Shutz e seus seguidores às realidades filosóficas de sua situação é reproduzida nas perspectivas desse grupo de neomarxistas orientados pela fenomenologia."
Aqui estou considerando que a objeção de Gorman à sociologia fenomenológica de Alfred Schutz, em termos da proposta deste como "visão dual", uma totalidade conceitual aparente mas na verdade cindida entre duas direções opostas, atacou mais do que apenas a pretensão de Schutz em lançar uma ponte sobre as águas que separam a cientificidade objetiva da fenomenologia husserliana. Antes visaria ao próprio Husserl, na medida em que como vimos Gorman critica toda a fenomenologia pela mesma ambiguidade entre o sujeito e o objeto.
Paralelamente, o cientificismo objetivista do naturalismo/neoempirismo foi confrontado severamente por Gorman - como também vimos antes - enquanto limitado pelos teóricos sociais que consideram as questões de humanities inviáveis à metodologia do referente universal moldado para lidar com fenômenos naturais.
Como é bem do conhecimento dos fenomenologistas e Gorman enfatiza criticamente, a obra de Husserl se cinde desde que, do Ego transcendental como consciência absoluta pura, ele se propõe conceituar o Lebenswelt ou mundo da vida. Ao ver de Gorman, ou as duas partes da obra são incompatíveis ou alguma deve se entender propedêutica à outra: como o mundo da vida à fenomenologia transcendental da consciência.
Mas se for assim, a seu ver "a fenomenologia transcendental de Husserl difere em aspectos básicos da filosofia existencial" como a de Heidegger em diante. Pois o nível de objetividade em Husserl, em vez do Lebenswelt, continuou sendo a apoditicidade do Ego transcendental, um inatismo racionalista. Como sublinhei antes, creio que nisso Gorman não logra demonstrar a inviabilidade filosófica do racionalismo. Se não somos partidários dessa filosofia, é justamente porque não cremos que a questão filosófico-humanística possa ser resolvida por qualquer prova cabal, no limite possível apenas como científica. Não confundimos assim filosofia e ciência.
E críticos mais eruditos poderiam questionar sua pretensão de que a "ontologia existencial" de Heidegger realmente transpõe todas as dificuldades geradas pelo transcendental husserliano - como ele mesmo diz, já que a princípio considera que se Husserl não toma o caminho propedêutico do Lebenswelt, é porque ele conserva o transcendental, não havendo muito que antepor a que Heidegger também o faz.
Gorman nesse ponto cita o sociólogo Theodore Abel (p. 152), para demonstração do óbvio idealismo de Husserl: "Sua afirmação de uma convicção absoluta não é científica...". E assim, "se uma afirmação feita por um fenomenologista não é aceita como evidente por outra pessoa, ele tem apenas que acusar o seu oponente de uma contemplação imprecisa, mas não tem maneiras de convencê-lo da validade de sua afirmação...".
O problema se torna insolúvel quando se trata de humanities, pois nesse caso o próprio referente não é dado e precisa ser conceitualmente construído. Mas os naturalistas se contentam com generalidades objetivas que não são mais que triviais, e se a fenomenologia não o pode fazer, Gorman anota que não houve uma, e sim duas propostas: ajeitar-se com a eidética de Husserl ou tentar modificar a concepção de sua fenomenologia, como Schutz.
Quanto a este, é importante a crítica de Gorman no sentido de mostrar que sua analítica do ideal tipo resultaria na canonização como social em si, daquilo que por Heidegger foi criticado como nada mais que Das mann - a alienação do ser como "todo mundo", em termos do que impede a singularidade existencial auto-formular-se na linguagem. Em termos de ciência social, o que limita os resultados a nada além de trivialidade
De fato Schutz pensa o ideal tipo em termos de "fantoches" - modelos de ações possíveis idealizados pelo sociólogo, embora não possam ser personificados por qualquer pessoa real; essas ações possíveis que os agentes reais repetem vinte e quatro horas por dia, todos os dias, numa sociedade, são conceituadas como "receitas sociais " que todo mundo aplica antes mesmo de pensar, reduzindo-se a concepção de ser um agente na sociedade a ser capaz de atuar uma infinidade de atos tão mecânicos quanto entrar num elevador (abrir a porta ou apertar o botão e esperar, atravessar o limiar da porta, apertar o botão do andar, esperar, abrir a porta, avançar ao corredor, fechar a porta); e a relação da ação ideal-típica do fantoche em termos de receita social, com a atuação efetivamente realizada aqui e agora, é sempre de "obediência", assim de fato não havendo o presente (aqui-agora) no tempo, mas sim uma orientação constante pelo passado em que as receitas estão acumuladas, aplicadas somente pelo visar de um futuro como da expectativa do resultado de sua aplicação. Ademais a "obediência" não é solipsista, mas se verifica num entrelaçamento de motivos "a fim de", os objetivos de alguém ao aplicar receitas, com os motivos " por que" dele mesmo ou de outros que dependem das ações dele, estes segundos sendo os motivos que explicariam as expectativas pelas quais existem os objetivos. A finitude do ser humano está implicada na impossibilidade de existirem explicações ulteriores, assim como no ajuste que as pessoas fazem de seus próprios objetivos na intersubjetividade.
Para Gorman esse é um quadro sombrio da existência socializada do ser humano. A meu ver, Schutz não está fazendo um juízo sobre a existência, mas tencionando prover a solução para o conhecido problema da sociologia funcionalista até aí - de que ela, como de Dilthey a Weber, não consegue obter mediação entre o subjetivo e o objetivo, não obstante ambos coincidirem no "significado" ou "ideal-tipo" da ação social como o que teria sentido para alguém (e não algo mensurável ou causal na acepção naturalista).
A solução de Schutz contempla o viés filosófico, julgando que é o que estava sendo necessário antes, e assim obtendo adeptos na corrente da sociologia do conhecimento, como Berger e Luhman. Limita-se Schutz nessa solução à redução dos significados funcionais das ações à consciência transcendental-fenomenológica. Sempre se poderia assim pensar que as sociedades humanas são apenas facetas de um único enorme homem cujas variações de temperamento resultam em atitudes desiguais.
Enquanto uma solução como a de Talcott Parsons, para o mesmo problema, optou por vê-lo como carência até a de uma teoria geral, numa solução apenas metodológica e não filosófica. Mas de fato a ciência social se resolve em todos estes, na tarefa de "mapear" funções relativas a ações com sentido - nisso é que falha o funcionalismo, pois ação e sentido podem não ser coincidentes justamente quando se extrapola a visão do seu sentido solipsista, rumo ao entrelaçamento de motivos ou aos efeitos verificados.
Uma explicação pode residir fora da sociedade considerada, da qual a função que se estuda é apenas uma variável relativamente a outras sociedades em que ela é articulada em combinações diferentes de elementos, sem que os membros de uma sociedade conheçam os de todas as outras ou compreendam a variação. Talcott Parsons intuiu isso mesmo, porém a seu ver sempre se trata de totalidade de funções significadas - uma aposta arriscada de que Lévi-Strauss se exime com mais sagacidade. Porém a etnologia straussiana também não renuncia à teleologia do a priori.
Além disso, quanto a Shutz, realmente podemos ver que a concepção de "obediência" não é o caso, quando se trata de ações cuja execução é do interesse do agente mas não havendo opção para execução dada sua trivialidade. Seria impróprio realmente mandar alguém "respirar". Gorman se limita a notar que a obediência é conflitiva com a noção de ações criativas.
Repetindo, esta crítica abrangeria muito da sociologia funcionalista que anda generalizada hoje em dia - e Gorman realmente examina algumas vertentes que fracassam nessa direção, como a etnometodologia e a teoria da tomada de decisão.
Ora, a viragem hermenêutica ou ontológico-existencial, parece a Gorman a princípio adequada , em vez disso, rompendo com Husserl. Mas quando se estende à sociedade, desde a pura filosofia, duas concepções inconciliáveis são também ao mesmo tempo dispostas como princípios de aplicação ontológico-existencial na sociologia.
À página 172, lemos a que afirma que "a sociedade como um todo não é a soma de suas partes analiticamente distintas: não existem partes distintas da sociedade dinâmica de onde são extraídas". Mas à página 177, Gorman destacou a contrapartida conforme a qual "o todo social totalizante existe na e através das totalidades parciais, mediações múltiplas, que são dinamicamente ligadas umas às outras e ao todo por padrões constantemente variáveis."
Não é só a teoria social dialética, expressa em "b" que se torna problemático amalgamar à teoria social fenomenológica existencial ou hermenêuetica expressando-se em "a". Pois "b" também é um princípio desta, traduzindo-se em Lukács, Marcuse e Tran Duc Thao entre outros, como "multidimensionalidade". Mas para o cientista social, como as diversas mediações seriam atingidas, senão como partes definidas de um todo. Essa objeção pode ser colocada mesmo sem falar na hipótese que a meu ver é mais válida, daquilo que se designou partes não serem de fato mediações, mas núcleos independentes convivendo na sociedade como heterogeneidade ao invés de totalidade dinâmica.
Resta que é sempre focalizando o sujeito transcendendo-se na sociedade, e esta na historicidade, que qualquer descrição da totalidade poderia se viabilizar, ao ver de Gorman. Mas a síntese desse parâmetro existencial sócio-subjetivo, em si dualista (ambíguo), ainda com a objetividade requerida pelo marxismo, prova-se então, conforme Gorman, tarefa grande demais, que por isso uma síntese humanista do marxismo estaria "fadada ao insucesso desde o começo não importa de que ponto a comecemos."
Gorman considera que uma opção válida seria o subjetivismo teórico que conscientemente afirmado anularia o dualismo e faria margem suficiente para a pluralidade dos demais pontos de vista. Esta solução combinaria com o que tenho afirmado em termos das "humanities operacionais" como alinhavamos - para exame posterior - desde a leitura de Bottomore. Mas Gorman situa sua opção como caminho disposto pela fenomenologia reconceituada apenas como "escolha intencional" ou "práxis subjetivamente determinada e livre acima tanto do objetivismo quanto do transcendentalismo materialista", na base de que essa fenomenologia como "busca aparentemente eterna de justiça social" revitalizaria um academicismo impotente e o tornaria apto ao "compromisso da mudança social libertadora". (p. 188).
Todos nós que estamos interessados nesse compromisso com a justiça e a liberdade partilhamos necessariamente essa posição, mas a "intencionalidade" é o que parece-me ter sido o foco gerativo da ambiguidade que se propaga a todo uso possível da fenomenologia. Pois restringe ao resultado psicologista da introspecção não só toda problemática da subjetividade.
Só quanto a isso podemos notar que o próprio Heidegger se mantem limitado na medida em que aquilo que deve se expressar como singularidade existencial, para ele seria produzido na linguagem. Mas esta em termos de visão de mundo não deixaria à consciência nenhuma transcendência que não a objetividade histórica - assim como na "escolha" sartriana, que só fazemos como "nossa" entre itens que já estão objetivamente "aí". A criatividade é algo não propositivamente visado na analítica da pre-sença (dasein/existência)- o que a pre-sença visa é o seu passado ("pré-"), sendo o seu visar expectativa do seu futuro, o qual não comporta todas as possibilidades mas é dado na finitude do humano, e por isso é que o presente como sucessão contínua é quimérico, a presença que a metafísica pré-julgou tão universalmente conceituada como a coisa ("res"/substância). Essa temporalidade
"ek-stática" - extemporânea ao tempo da física - como se pode convir, é bastante semelhante em Husserl e Heidegger. Ambos não deixam de apreender algo importante de nós mesmos como seres "situados" porém creio que simplificam muito pois o situamento não é tão redutor do ponto de vista da temporalização, e o que ele devia explicar é porque somos capazes de rupturas que não são apenas "dialéticas" como antítese ou "existencial" como predeterminação das escolhas. Mesmo que contextualizadas, as mudanças podem estar relacionadas a elementos novos, desconhecidos e assim não pensáveis antes, tanto quanto não somos capazes de nos deslocar à vontade para além da irreversibilidade do presente a que se limita nossa auto-apreensão. Como Derrida operou, Heidegger é na verdade convergente com Freud.
Derrida utilizou esse amálgama para sua própria teoria da escritura psíquica - o passado como cena do inconsciente, que se provaria quando ocorre retorno do recalcado. Esse foi um recurso usual no pós-estruturalismo, que assim tornou-se a corrente na história da filosofia que integrou a teoria do inconsciente. Porém a teoria freudiana dos traços mnésicos estava dependente de uma concepção da percepção que já está invalidada. Hoje já se demonstrou que é na atualidade da percepção como do aparelho perceptivo que se qualifica o dado percebido, inclusive quanto ao tempo e espaço, ao invés de ser necessário uma instância pré-fixada, não perceptiva mas inconsciente, para transvazar qualidade e sentido ao percepto. As singularidades da personalidade contribuem na qualificação perceptiva, e o percepto varia em alguns aspectos, de pessoa a pessoa, mas isso não implica que a realização da percepção seja feita fora do aparelho perceptivo, ou como Freud dizia, "no traço".
O próprio Gorman situou o dualismo refletido no marxismo humanista, em termos de contradição tal que "o todo dialético materialista inclui o sujeito, mas o antecede" (p. 179). O mesmo poderia-se dizer do tempo ekstático fenomenológico-existencial. Ou seja, como algo que poderia se estender a todo o paradigma fenomenológico e hermenêutico da intencionalidade, há o pressuposto de uma realidade subjetiva que no entanto está dada para todos os sujeitos na sua particularidade assim pré-alienada. E assim também para toda a história possível.
A opção de Gorman visa evitar a radicalização da fenomenologia numa concepção tão contraditória nesse sentido, que chegaria a elidir a individualidade como algo meramente empírico, para supor haver apenas um só e mesmo todo da consciência transcendental. Mas todo situamento intencional é metodologicamente orientado para a generalidade (consciência) tanto mais comece por ocupar-se da "subjetividade", uma vez que a reduz a significações pre-estabelecidas.
E também se trata daquilo que Bottomore ("Introdução à sociologia") posicionou em termos da "complexidade" descoberta inerente aos fenômenos sociais. Pois, nem sempre nós podemos isolar um problema social determinado, sem que se depare com uma soma crescente e ilimitada de problemas imbricados ao que parecia a princípio um único. Esta poderia ser mais uma das proposições dentre as que Gorman selecionou como os cinco argumentos dos cientistas sociais contra a crítica naturalista do subjetivismo ou do relativismo cultural.
E o problema que visamos em nossa objeção a Gorman como existencialista, é precisamente que ele aumenta a ambiguidade ao invés de saneá-la, porque justamente ela se dá entre esses dois étimos - subjetivismo e relativismo cultural - se entre ambos não se fez a liquidação do transcendental como do a priori. Estes fatores pelos quais, ao invés de na verdade o mesmo, subjetivismo e relativismo tornam-se contrários, e nesse sentido a apodicticidade de Husserl e o "pré" da "pre-sença" de Heidegger não são metodicamente tão incompatíveis, se a pluralidade do Lebenswelt não anula a priori da consciência ekstática. Isso, ainda que o Ser heideggeriano realmente não tenha sido antecipado como tema filosófico em Husserl.
Estamos pois nos antípodas do "postulado antropológico" que Foucault
estabeleceu como limite paroquiano intransponível das humanities, notando que
ao contrário, se hoje a crítica a isso tem um alcance não apenas idealista, da
revolta contra o preconceito, mas é uma posição rigorosa pelos resultados da
ciência, é muito devido ao trabalho de campo das humanities,
descomprometido com preconcepções de postulados.
E esta tem sido a posição que desde Wootton e outros, me parece mais adequada na ciência como pós-"moderna". A ela designamos posição operacional em humanities - a ciência operacional sendo a que fornece informações empíricas, inversamente como vimos, à ciência aplicada.
A ciência operacional seria a meu ver "pós-moderna" porque já não comprometida com paradigmas de "desenvolvimento" como meramente cópia do ocidente - hoje o desenvolvimento é apenas a excelência dos padrões de vida da população de um país, nem apenas de um grupo selecionado da população, nem objetivos ulteriores como corrida belicista ou "reserva do saber" tecnológico. E a modernidade tendo sido a sucessão de paradigmas idealistas do desenvolvimento como percurso do sujeito da história (ocidente), isto é, sempre reduzindo a ciência a um critério "alter-egológico" de aplicação na margem. Assim abstraindo o imperialismo como o substrato mesmo da revolução industrial que especifica o telos do desenvolvimento ocidental.
Pelo que examinamos do "naturalismo" neoempirista, como já vimos, inverte-se a apreciação foucaultiana, mostrando que é a ciência da natureza
que promove um limite como postulado da Representação do Homem que viria repor,
como arcaísmo, a Natureza fixista em plena era da biologia evolutiva.
Relacionado ao estudo antropológico da lei e às pesquisas em sociologia do crime, seria importante considerar a questão mais ampla em ciência social, da "patologia social". Até que ponto podemos considerar a infração algo comum na sociedade, a partir do qual se trataria ao contrário de "anomia" na acepção de "patologia social"?
A constatação operacional da pesquisa, como acima estabelecemos, foi apenas de que muitas explicações
populares do crime e da delinquência
são insustentáveis.
Mas assim ficou problemático o antigo pressuposto funcionalista, o de Durkheim, sobre a anomia
(patologia social) como uma explicação única dos problemas sociais – enquanto
ausência de coesão social. Na verdade essa definição de Durkheim é de
complicada apreensão, ainda que o funcionalismo a veja como útil. Pois o
problema social fica sendo apenas a ausência do social - "anomia" significando etimologicamente ausência de "nomos", isto é, de lei civil; e no entanto não
entendemos o conflito fora da sociedade como de relações nela mesma
entretecidas.
Bottomote ("Introdução à sociologia") cita a definição de Barbara Wootton em termos de "patologia social"
como “todos os atos para cuja prevenção o dinheiro público é gasto, ou cujos
agentes são punidos ou tratados, de qualquer outro modo, a expensas dos
recursos públicos”.
O professor Bottomore critica a definição de Wootton, na medida em que se a intenção desta é
definir o campo de estudo o mais precisamente possível e evitar as dificuldades
que surgem de ideias subjetivas divergentes sobre o que devemos considerar
'problemas sociais' , a definição limita o campo ao se referir apenas a ações,
e não a situações – ainda como tal atos que só atraem a atenção do Estado num
determinado momento.
A pobreza, graus de conflito industrial, guerras, nada disso poderia ser
equacionado como patologia social por estar fora da noção de ação ou de objeto
do interesse punitivo do Estado. Essas são situações e tipos de comportamento,
não ações. Por esse motivo Bottomore se atem à definição de Raab e Selznick:
Por “problema social” entendem “um problema de relações humanas que
ameaça seriamente a própria sociedade, ou impede as aspirações importantes de
muitas pessoas”.
Ora, de fato a oposição de ação e situação é pertinente, mas a questão não me parece ter sido esclarecida, desde que o caráter do que é ou
não importante vem a ser aquilo de que nela se trata. Assim, justamente em âmbito de situação, podemos ver que um grupo oligárquico pressupõe que seus interesses de privilégio, que implicam subserviência ostensiva dos outros grupos sociais, são importantes socialmente por definirem a sociedade como tradição; enquanto a população interessada na sociedade historicizada, isto é, politizada democraticamente a partir de se ter rompido com o regime tradicional, define o que é importante como o que se coaduna com a democratização das oportunidades de acesso a bens e serviços, assim como a igualdade do status político.
Ora, para efeitos de estudo, é o ajuste dos segmentos sociais heterogêneos expresso na forma atual do governo, atinente à organização atual do Estado, o que serve adequadamente à necessidade de definir o que é importante como o que é prejudicado pela "patologia social". Então a "situação" em si não define a categoria do "prejudicial", se não existirem ações definidas que configurem impedimento aos objetivos importantes. Alguém pode continuar pensando que tem prerrogativas ontológicas por ser de determinada família ou por outros motivos de situação ("tradicionais"), porém se nada faz que implique estorvar os objetivos alheios, isso não configura patologia "social". Por outro lado, a situação de pobreza pode ser opção pessoal - como de monges ou ascetas - não determinando ações humilhantes ou relacionadas a carências sub-humanas, do ponto de vista social.
Ainda
assim, a transposição da ação à situação quanto ao problema social impede que
haja um patamar de solução competente à ciência social. Se esse patamar deixou
de ser almejável pelo fato de não haver correlação assinalável de motivos
relacionados ao crime, não obstante a transposição à situação impede que tivesse restado
qualquer confusão da sociologia com política social a partir de alguma
solicitação explicativa, redutora da complexidade, à psicologia dos atos
humanos.
Vimos que quando se trata desse aspecto, os neoempiristas se tonaram
contraditórios, ao mesmo tempo abraçando o empirismo, o behaviorismo e até a
psicanálise como explicações aceitas científicas e aplicáveis como soluções
universais a toda problemática humanística proponível. Mas estas três são
posições inconciliáveis entre si.
Se considerássemos que em vez de contradição os neoempiristas apenas colocam o
fato de que independente do conteúdo essas são posições que recusam o a priori
e assim são científicas e não metafísicas, o problema do conteúdo retornaria no
ponto de sua argumentação em que por serem científicas elas seria aplicáveis
universalmente e assim trata-se de um postulado antropológico não “humanista”
mas rigoroso. Como seriam todas aplicáveis, se são
contraditórias?
O recuo formal do argumento etnocêntrico até aqui restrito apenas pelo fato da ciência
ser empírica - pelo que todas três são, como científicas
,uma questão de tempo para solucionar seu litígio e em todo caso
universais - não parece coerente com o texto em que ora uma ora outra se veem
aplicadas. Como na questão de como surgiu a metafísica, etc.
Em todo caso, notamos que é esse o cerne pelo qual se pode demonstrar que
o neoempirismo como persistência do etnocentrismo ocidental estruturado como
poder decisório legitimado pela ciência se manteve mesmo na decorrência da
própria ciência especializada não mais corroborar os seus princípios . Não
podemos negar que essa persistência continua a ser estruturante da ciência da
natureza hoje em dia, ainda que muitos cientistas se coloquem contra isso. Essa
neurose pode assim ser diagnosticada, e não devemos esperar que ela não se
transforme em atos de vandalismo contra toda evidência
anti-sócio-evolucionista.
Livro 2
A problemática do cientificismo ampliou-se durante o século XX para abarcar o campo da decisão política. Isso vimos na defesa "naturalista" do cientificismo universalista articulada com a pretensão de definir nada menos que a legitimação do liberalismo, o regime ocidental contemporâneo. Por outro lado, o regime socialista soviético estava amparado pelo mesmo discurso cientificista. Obviamente não era porém a mesma coisa que a Leste e Oeste se estava defendendo como o legitimável pelo ser assim da razão.
O problema não se limita à interrupção da demonstração, que se poderia esperar de algo posto como transcendental à história nos termos de alguma razão universal - conforme reza um dos lados do trilema de Munchhausen, com que Hanz Albert cercou muito bem a impossibilidade do transcendental, os outros dois sendo o regresso ao infinito e a petição de princípio. E não creio que a objeção apeliana da "contradição performativa" possa solver a aporia. Pois ela não fornece caução nenhuma para a afirmação de um transcendental conceituável, entre quaisquer que já se tenham proposto ou que se possam ainda propor. E se ela faz do trilema mesmo mais um transcendental, a indecisão assim só aumenta ao contrário de diminuir.
A interrupção da demonstração nesse caso da pretensão político-transcendental do cientificismo naturalista e/ou dialético é nítida. Pois como vimos afirmado pela própria sociologia empírica, não há nexo algum que se siga de proposições científicas já existentes a medidas legais definidas para questões concretas do presente sócio-político. A ciência pode apenas fornecer informações sobre fatos, mas o que se conclui em termos de valor é a matéria política que não pode ser dominada além da heterogeneidade representada pelos sistemas democráticos ou, do contrário, trata-se disso mesmo, dominação e não legitimidade.
O problema porém nem é só a interrupção do argumento, naquele ponto em que nada se segue da mera postulação de que "é assim", como de que a ciência é universal, portanto detem a verdade de todos os problemas, etc. Mas o argumento não mostra sentido no seu próprio estabelecimento, se como a história demonstra, ele pode significar duas coisas muito diferentes, como a Leste e a Oeste de fato significou. O ocidente manejou o argumento naturalista do transcendental racional para garantir a liberdade da pesquisa. Ao contrário, na União Soviética, China e outros contextos ditatoriais-proletários, o argumento transcendental dialético como cientificismo era a doutrina de Estado para garantir ingerência total deste sobre toda pesquisa, pensamento e opinião.
Mas nestes dois significados politicamente irredutíveis, ainda que derivando-se do mesmo enunciado argumentativo visando reduzir o político á universalidade científica, a ambiguidade é a mesma. O cientificismo que se defende é na verdade o correlato do saber histórico, falseável e observacional/experimental. Ou seja, saber relativo a uma realidade ela mesma em devir "evolutivo" - em sentido puramente biológico. Porém o argumento, defendendo a previsibilidade total, conserva a forma adequada só ao saber possivelmente metafísico, isto é, aquele cujo correlato é uma realidade imutável.
Assim também podemos constatar que esse enunciado cientificista não é constante desde os tempos de Galileu até a sucessão dos paradigmas romanticista, positivista, funcionalista e estrutural, da "modernidade". Pelo contrário, teria chocado o próprio empirismo como pioneiramente se articulava, entre Galileu, Locke e David Hume.
Localizamos a ambiguidade do enunciado num momento determinado da trajetória paradigmática que conceituamos aqui em termos de "geo-ego-logia" - a auto-posição do ocidente como Sujeito da história, cuja subjetividade definiria o sentido teleológico-central de sua evolução psicossocial, ao mesmo tempo que o objeto, a margem como o primitivo. A paralogia já incide na objetificação dessa margem, que se traduz em alter-egologia, a repetição nua da trajetória evolutiva. O momento em que localizamos o enunciado ambíguo do cientificismo transcendental - por assim expressar - é o da vigência do paradigma funcionalista. Tratamos os paradigmas em termos de fases da objetividade psicanalítica - ela mesma paralógico-idealizada quanto ao objeto, surgindo nesse mesmo momento histórico. Já observamos também que a ambiguidade típica do enunciado paradigmático desse momento - que na trajetória geo-ego-lógica fixamos em termos da fase fálica da disposição do objeto - é exemplar na fenomenologia-hermenêutica. Horizonte de ideias avesso ao cientificismo, no entanto a base do transcendental é aí o ponto a defender explicitamente. A redução do histórico ao transcendental, como da efetividade ao idealizável, sem contudo recuar dos primeiros termos dessas antíteses, é a ambiguidade característica da fenomenologia-hermenêutica, que teve um papel transversal na dualidade de Leste e Oeste quanto à nova questão do universal científico. Questão que como já se deve ter compreendido, determina os rumos das políticas imperialistas, o destino da alteridade cultural.
A partir daqui reunimos fatores que permitirão: a) compreender a transversalidade da fenomenologia-hermenêutica enquanto fator de solução do impasse cientificista na era da guerra-fria; b) desenvolver e explicitar a nossa concepção do funcionalismo como ambiguidade fálica, na abrangência da explicitação das fases da modernidade em seu sentido "geo-ego-lógico"; e c) conceituar o fim do pensamento paradigmático, em termos da ciência na pós-modernidade.
a)
O exame que vimos desenvolvendo mostrou que ao mesmo tempo sendo praticada performaticamente, a ambivalência ou ambiguidade foi tematizada de modo negativo ou positivo como algo sempre relacionável à problemática cultural desde a modernidade. Mas esses encaminhamentos não chegam a conceituar uma dualidade inerente, como Gorman tencionou explicitar ("A visão dual", ed. Zahar, p. 188).
Entre o marxismo ortodoxo e a fenomenologia que instrumentou o marxismo em sua versão dita humanista, Gorman situou duas "metodologias convincentes" que podem igualmente facilitar "o exame e explicação dos fenômenos sociais". Mas de fato, segundo ele, "nenhuma convence" a partir do exterior sobre seus próprios parâmetros teóricos. Essa mesma observação abrange o terceiro vetor da análise de Gorman, que aqui examinamos como o do naturalismo cientificista (neoempirismo). Temos assim campos explicativos imanentes, cada um pretendendo-se totalizante do horizonte fenomênico, mas tecendo-se a partir de uma crítica dos demais que não pôde se demonstrar final.
A questão crucial na concepção de Robert Gorman, porém, é que um amálgama assim designado humanizante (existencial-fenomenológico) do marxismo, esbarra com o fato de que o marxismo em si é epistemologicamente objetivista. O verdadeiro impasse da ciência estaria residindo entre subjetivismo de signo humanizante e objetivismo auto-posicionado como anti-idealista e só assim emancipador.
A fenomenologia marxista como o existencialismo sartriano e a Escola de Milão liderada por Enzo Paci, se torna questionada por Gorman na medida que, como ele diz de Paci, quer manter uma "análise fenomenológica da subjetividade transcendental como se os resultados fossem, em algum sentido objetivo, intersubjetivamente válidos" (p. 182). Mas como para Paci, também para Sartre, em seu "enfoque da ação autodefinida" o que resulta é uma "ambiguidade desorientadora", ou mais precisamente um tipo de "esquizofrenia intelectual" (p. 184).
Vemos que o tópico não é uma digressão em relação ao que vimos expondo, se puder ser demonstrado que os encaminhamentos habituais examinados foram manter-se precisa e esquematicamente entre ambos, objetividade/ subjetividade, sem pretender renunciar a nenhum dos dois mas sendo que não são realmente conciliáveis. A impossibilidade dessa renúncia é o que espreita seja a rejeição da ruptura estrutural em relação aos intuitos da fenomenologia-hermenêutica, seja a recusa de confrontar o pós-estruturalismo como parâmetro objetivo e ao mesmo tempo diverso do marxismo.
Assim, obter um esquema geral da ambiguidade epistemologicamente subjacente a todo o percurso da filosofia política - desdobrada então como "ontologia social" - no período de mutação entre o modernismo e o pós, se torna hoje importante.
Por um lado, conforme Gorman, Paci intenta complementar Husserl, que sempre teria tentado atingir "as coisas em si percebidas subjetivamente em troca de simples representações sociais delas" (p. 182), mas sem poder assim de modo algum "descobrir os critérios de objetividade na sociedade", ainda que lográ-lo correspondesse ao paciano intuito.
Por outro lado, Gorman considera impossível discernir qual das duas tendências expressas na linguagem sartriana realmente compacta-se como sua filosofia única. O dilema inteiro expresso na afirmação de Sartre de que se "só a única realidade prática é dialética, a força motriz de tudo é a ação individual". Mas o segundo período da frase resultaria num subjetivismo puro, enquanto o primeiro induz, conforme Gorman, a que "o partido institucionalizado é, e deve ser, onipotente".
Aqui a ambiguidade entre objetivo e subjetivo se desdobra num questionamento do conceito fenomenológico uma vez tornado marxista, da intersubjetividade. Pois ele determina, desde a perspectiva solipsista e/ou analítica do teórico, aquilo que seria a subjetividade dos outros - tanto como aquilo que é suposto realidade em si.
A confusão de conceito puro e realidade em si é, em princípio, o que Gorman atribui como visão dual ao próprio Husserl, assim como ao primeiro dentre os teóricos sociais que almejaram aplicar Husserl à sua área de investigação, Alfred Schutz: "A visão dual que cegou Shutz e seus seguidores às realidades filosóficas de sua situação é reproduzida nas perspectivas desse grupo de neomarxistas orientados pela fenomenologia."
Aqui estou considerando que a objeção de Gorman à sociologia fenomenológica de Alfred Schutz, em termos da proposta deste como "visão dual", uma totalidade conceitual aparente mas na verdade cindida entre duas direções opostas, atacou mais do que apenas a pretensão de Schutz em lançar uma ponte sobre as águas que separam a cientificidade objetiva da fenomenologia husserliana. Antes visaria ao próprio Husserl, na medida em que como vimos Gorman critica toda a fenomenologia pela mesma ambiguidade entre o sujeito e o objeto.
Paralelamente, o cientificismo objetivista do naturalismo/neoempirismo foi confrontado severamente por Gorman - como também vimos antes - enquanto limitado pelos teóricos sociais que consideram as questões de humanities inviáveis à metodologia do referente universal moldado para lidar com fenômenos naturais.
Como é bem do conhecimento dos fenomenologistas e Gorman enfatiza criticamente, a obra de Husserl se cinde desde que, do Ego transcendental como consciência absoluta pura, ele se propõe conceituar o Lebenswelt ou mundo da vida. Ao ver de Gorman, ou as duas partes da obra são incompatíveis ou alguma deve se entender propedêutica à outra: como o mundo da vida à fenomenologia transcendental da consciência.
Mas se for assim, a seu ver "a fenomenologia transcendental de Husserl difere em aspectos básicos da filosofia existencial" como a de Heidegger em diante. Pois o nível de objetividade em Husserl, em vez do Lebenswelt, continuou sendo a apoditicidade do Ego transcendental, um inatismo racionalista. Como sublinhei antes, creio que nisso Gorman não logra demonstrar a inviabilidade filosófica do racionalismo. Se não somos partidários dessa filosofia, é justamente porque não cremos que a questão filosófico-humanística possa ser resolvida por qualquer prova cabal, no limite possível apenas como científica. Não confundimos assim filosofia e ciência.
E críticos mais eruditos poderiam questionar sua pretensão de que a "ontologia existencial" de Heidegger realmente transpõe todas as dificuldades geradas pelo transcendental husserliano - como ele mesmo diz, já que a princípio considera que se Husserl não toma o caminho propedêutico do Lebenswelt, é porque ele conserva o transcendental, não havendo muito que antepor a que Heidegger também o faz.
Gorman nesse ponto cita o sociólogo Theodore Abel (p. 152), para demonstração do óbvio idealismo de Husserl: "Sua afirmação de uma convicção absoluta não é científica...". E assim, "se uma afirmação feita por um fenomenologista não é aceita como evidente por outra pessoa, ele tem apenas que acusar o seu oponente de uma contemplação imprecisa, mas não tem maneiras de convencê-lo da validade de sua afirmação...".
O problema se torna insolúvel quando se trata de humanities, pois nesse caso o próprio referente não é dado e precisa ser conceitualmente construído. Mas os naturalistas se contentam com generalidades objetivas que não são mais que triviais, e se a fenomenologia não o pode fazer, Gorman anota que não houve uma, e sim duas propostas: ajeitar-se com a eidética de Husserl ou tentar modificar a concepção de sua fenomenologia, como Schutz.
Quanto a este, é importante a crítica de Gorman no sentido de mostrar que sua analítica do ideal tipo resultaria na canonização como social em si, daquilo que por Heidegger foi criticado como nada mais que Das mann - a alienação do ser como "todo mundo", em termos do que impede a singularidade existencial auto-formular-se na linguagem. Em termos de ciência social, o que limita os resultados a nada além de trivialidade
De fato Schutz pensa o ideal tipo em termos de "fantoches" - modelos de ações possíveis idealizados pelo sociólogo, embora não possam ser personificados por qualquer pessoa real; essas ações possíveis que os agentes reais repetem vinte e quatro horas por dia, todos os dias, numa sociedade, são conceituadas como "receitas sociais " que todo mundo aplica antes mesmo de pensar, reduzindo-se a concepção de ser um agente na sociedade a ser capaz de atuar uma infinidade de atos tão mecânicos quanto entrar num elevador (abrir a porta ou apertar o botão e esperar, atravessar o limiar da porta, apertar o botão do andar, esperar, abrir a porta, avançar ao corredor, fechar a porta); e a relação da ação ideal-típica do fantoche em termos de receita social, com a atuação efetivamente realizada aqui e agora, é sempre de "obediência", assim de fato não havendo o presente (aqui-agora) no tempo, mas sim uma orientação constante pelo passado em que as receitas estão acumuladas, aplicadas somente pelo visar de um futuro como da expectativa do resultado de sua aplicação. Ademais a "obediência" não é solipsista, mas se verifica num entrelaçamento de motivos "a fim de", os objetivos de alguém ao aplicar receitas, com os motivos " por que" dele mesmo ou de outros que dependem das ações dele, estes segundos sendo os motivos que explicariam as expectativas pelas quais existem os objetivos. A finitude do ser humano está implicada na impossibilidade de existirem explicações ulteriores, assim como no ajuste que as pessoas fazem de seus próprios objetivos na intersubjetividade.
Para Gorman esse é um quadro sombrio da existência socializada do ser humano. A meu ver, Schutz não está fazendo um juízo sobre a existência, mas tencionando prover a solução para o conhecido problema da sociologia funcionalista até aí - de que ela, como de Dilthey a Weber, não consegue obter mediação entre o subjetivo e o objetivo, não obstante ambos coincidirem no "significado" ou "ideal-tipo" da ação social como o que teria sentido para alguém (e não algo mensurável ou causal na acepção naturalista).
A solução de Schutz contempla o viés filosófico, julgando que é o que estava sendo necessário antes, e assim obtendo adeptos na corrente da sociologia do conhecimento, como Berger e Luhman. Limita-se Schutz nessa solução à redução dos significados funcionais das ações à consciência transcendental-fenomenológica. Sempre se poderia assim pensar que as sociedades humanas são apenas facetas de um único enorme homem cujas variações de temperamento resultam em atitudes desiguais.
Enquanto uma solução como a de Talcott Parsons, para o mesmo problema, optou por vê-lo como carência até a de uma teoria geral, numa solução apenas metodológica e não filosófica. Mas de fato a ciência social se resolve em todos estes, na tarefa de "mapear" funções relativas a ações com sentido - nisso é que falha o funcionalismo, pois ação e sentido podem não ser coincidentes justamente quando se extrapola a visão do seu sentido solipsista, rumo ao entrelaçamento de motivos ou aos efeitos verificados.
Uma explicação pode residir fora da sociedade considerada, da qual a função que se estuda é apenas uma variável relativamente a outras sociedades em que ela é articulada em combinações diferentes de elementos, sem que os membros de uma sociedade conheçam os de todas as outras ou compreendam a variação. Talcott Parsons intuiu isso mesmo, porém a seu ver sempre se trata de totalidade de funções significadas - uma aposta arriscada de que Lévi-Strauss se exime com mais sagacidade. Porém a etnologia straussiana também não renuncia à teleologia do a priori.
Além disso, quanto a Shutz, realmente podemos ver que a concepção de "obediência" não é o caso, quando se trata de ações cuja execução é do interesse do agente mas não havendo opção para execução dada sua trivialidade. Seria impróprio realmente mandar alguém "respirar". Gorman se limita a notar que a obediência é conflitiva com a noção de ações criativas.
Repetindo, esta crítica abrangeria muito da sociologia funcionalista que anda generalizada hoje em dia - e Gorman realmente examina algumas vertentes que fracassam nessa direção, como a etnometodologia e a teoria da tomada de decisão.
Ora, a viragem hermenêutica ou ontológico-existencial, parece a Gorman a princípio adequada , em vez disso, rompendo com Husserl. Mas quando se estende à sociedade, desde a pura filosofia, duas concepções inconciliáveis são também ao mesmo tempo dispostas como princípios de aplicação ontológico-existencial na sociologia.
À página 172, lemos a que afirma que "a sociedade como um todo não é a soma de suas partes analiticamente distintas: não existem partes distintas da sociedade dinâmica de onde são extraídas". Mas à página 177, Gorman destacou a contrapartida conforme a qual "o todo social totalizante existe na e através das totalidades parciais, mediações múltiplas, que são dinamicamente ligadas umas às outras e ao todo por padrões constantemente variáveis."
Não é só a teoria social dialética, expressa em "b" que se torna problemático amalgamar à teoria social fenomenológica existencial ou hermenêuetica expressando-se em "a". Pois "b" também é um princípio desta, traduzindo-se em Lukács, Marcuse e Tran Duc Thao entre outros, como "multidimensionalidade". Mas para o cientista social, como as diversas mediações seriam atingidas, senão como partes definidas de um todo. Essa objeção pode ser colocada mesmo sem falar na hipótese que a meu ver é mais válida, daquilo que se designou partes não serem de fato mediações, mas núcleos independentes convivendo na sociedade como heterogeneidade ao invés de totalidade dinâmica.
Resta que é sempre focalizando o sujeito transcendendo-se na sociedade, e esta na historicidade, que qualquer descrição da totalidade poderia se viabilizar, ao ver de Gorman. Mas a síntese desse parâmetro existencial sócio-subjetivo, em si dualista (ambíguo), ainda com a objetividade requerida pelo marxismo, prova-se então, conforme Gorman, tarefa grande demais, que por isso uma síntese humanista do marxismo estaria "fadada ao insucesso desde o começo não importa de que ponto a comecemos."
Gorman considera que uma opção válida seria o subjetivismo teórico que conscientemente afirmado anularia o dualismo e faria margem suficiente para a pluralidade dos demais pontos de vista. Esta solução combinaria com o que tenho afirmado em termos das "humanities operacionais" como alinhavamos - para exame posterior - desde a leitura de Bottomore. Mas Gorman situa sua opção como caminho disposto pela fenomenologia reconceituada apenas como "escolha intencional" ou "práxis subjetivamente determinada e livre acima tanto do objetivismo quanto do transcendentalismo materialista", na base de que essa fenomenologia como "busca aparentemente eterna de justiça social" revitalizaria um academicismo impotente e o tornaria apto ao "compromisso da mudança social libertadora". (p. 188).
Todos nós que estamos interessados nesse compromisso com a justiça e a liberdade partilhamos necessariamente essa posição, mas a "intencionalidade" é o que parece-me ter sido o foco gerativo da ambiguidade que se propaga a todo uso possível da fenomenologia. Pois restringe ao resultado psicologista da introspecção não só toda problemática da subjetividade.
Só quanto a isso podemos notar que o próprio Heidegger se mantem limitado na medida em que aquilo que deve se expressar como singularidade existencial, para ele seria produzido na linguagem. Mas esta em termos de visão de mundo não deixaria à consciência nenhuma transcendência que não a objetividade histórica - assim como na "escolha" sartriana, que só fazemos como "nossa" entre itens que já estão objetivamente "aí". A criatividade é algo não propositivamente visado na analítica da pre-sença (dasein/existência)- o que a pre-sença visa é o seu passado ("pré-"), sendo o seu visar expectativa do seu futuro, o qual não comporta todas as possibilidades mas é dado na finitude do humano, e por isso é que o presente como sucessão contínua é quimérico, a presença que a metafísica pré-julgou tão universalmente conceituada como a coisa ("res"/substância). Essa temporalidade
"ek-stática" - extemporânea ao tempo da física - como se pode convir, é bastante semelhante em Husserl e Heidegger. Ambos não deixam de apreender algo importante de nós mesmos como seres "situados" porém creio que simplificam muito pois o situamento não é tão redutor do ponto de vista da temporalização, e o que ele devia explicar é porque somos capazes de rupturas que não são apenas "dialéticas" como antítese ou "existencial" como predeterminação das escolhas. Mesmo que contextualizadas, as mudanças podem estar relacionadas a elementos novos, desconhecidos e assim não pensáveis antes, tanto quanto não somos capazes de nos deslocar à vontade para além da irreversibilidade do presente a que se limita nossa auto-apreensão. Como Derrida operou, Heidegger é na verdade convergente com Freud.
Derrida utilizou esse amálgama para sua própria teoria da escritura psíquica - o passado como cena do inconsciente, que se provaria quando ocorre retorno do recalcado. Esse foi um recurso usual no pós-estruturalismo, que assim tornou-se a corrente na história da filosofia que integrou a teoria do inconsciente. Porém a teoria freudiana dos traços mnésicos estava dependente de uma concepção da percepção que já está invalidada. Hoje já se demonstrou que é na atualidade da percepção como do aparelho perceptivo que se qualifica o dado percebido, inclusive quanto ao tempo e espaço, ao invés de ser necessário uma instância pré-fixada, não perceptiva mas inconsciente, para transvazar qualidade e sentido ao percepto. As singularidades da personalidade contribuem na qualificação perceptiva, e o percepto varia em alguns aspectos, de pessoa a pessoa, mas isso não implica que a realização da percepção seja feita fora do aparelho perceptivo, ou como Freud dizia, "no traço".
O próprio Gorman situou o dualismo refletido no marxismo humanista, em termos de contradição tal que "o todo dialético materialista inclui o sujeito, mas o antecede" (p. 179). O mesmo poderia-se dizer do tempo ekstático fenomenológico-existencial. Ou seja, como algo que poderia se estender a todo o paradigma fenomenológico e hermenêutico da intencionalidade, há o pressuposto de uma realidade subjetiva que no entanto está dada para todos os sujeitos na sua particularidade assim pré-alienada. E assim também para toda a história possível.
A opção de Gorman visa evitar a radicalização da fenomenologia numa concepção tão contraditória nesse sentido, que chegaria a elidir a individualidade como algo meramente empírico, para supor haver apenas um só e mesmo todo da consciência transcendental. Mas todo situamento intencional é metodologicamente orientado para a generalidade (consciência) tanto mais comece por ocupar-se da "subjetividade", uma vez que a reduz a significações pre-estabelecidas.
E também se trata daquilo que Bottomore ("Introdução à sociologia") posicionou em termos da "complexidade" descoberta inerente aos fenômenos sociais. Pois, nem sempre nós podemos isolar um problema social determinado, sem que se depare com uma soma crescente e ilimitada de problemas imbricados ao que parecia a princípio um único. Esta poderia ser mais uma das proposições dentre as que Gorman selecionou como os cinco argumentos dos cientistas sociais contra a crítica naturalista do subjetivismo ou do relativismo cultural.
E o problema que visamos em nossa objeção a Gorman como existencialista, é precisamente que ele aumenta a ambiguidade ao invés de saneá-la, porque justamente ela se dá entre esses dois étimos - subjetivismo e relativismo cultural - se entre ambos não se fez a liquidação do transcendental como do a priori. Estes fatores pelos quais, ao invés de na verdade o mesmo, subjetivismo e relativismo tornam-se contrários, e nesse sentido a apodicticidade de Husserl e o "pré" da "pre-sença" de Heidegger não são metodicamente tão incompatíveis, se a pluralidade do Lebenswelt não anula a priori da consciência ekstática. Isso, ainda que o Ser heideggeriano realmente não tenha sido antecipado como tema filosófico em Husserl.
Aqui, pois, vemos que a ambiguidade de sujeito e objeto é na verdade gerada por uma ambiguidade mais profunda, a do universal e do cultural - como do Ocidente como sujeito do Saber para-si, e as culturas não-moderno-ocidentais como horizontes de valores diferenciados mas apenas em-si.
Essa ambiguidade "geo-ego-lógica" é posta e auto-apreendida enquanto hermenêutica gerativa do Ser heideggeriano. A saber, por qualquer enunciado que possa apreender a relatividade cultural, uma vez que como Husserl, Heidegger parece pensar que há uma chave transcendental de que a relatividade historicizada é efeito, e não realidade autônoma.
O que estamos constatando aqui é que, ao contrário do que parece ser a via principal da controvérsia em Gorman e outros, o empirismo como alvo da fenomenologia-hermenêutica não estava a esta altura defendendo o princípio de tal autonomia. Por outro lado, a questão só se estrutura desse modo, entre universal e particular, se existe a possibilidade tipológica que divide as sociedades em todos de sentido imiscíveis - numa progressão linear ou apenas virtual rumo à transparência do Saber - ao invés de multiculturalismo e heterogeneidade. Esse pressuposto é sintomaticamente conservado por todos os paradigmas da modernidade, que assim não puderam apreender a própria sucessão em função de outro - as sociedades não-ocidentais sobre que se faz o objeto da ciência social. A sucessão é sempre reinterpretada como produto da evolução intrínseca à cultura/Saber moderno-ocidental, efeito do enunciado, etc.
Em todo caso, se aqueles argumentos de Gorman apoiam em princípio objeções ao naturalismo que poderiam ser também feitas pela ciência social fenomenológica/ hermenêutica, o operacionalismo em humanities inversamente a qualquer paradigma intencional apenas fornece a informação do que realmente ocorre com relação a determinado problema - como vimos pelo exemplo da criminologia, onde em vez de agentes marginalizados a pesquisa revelou que tem sido protagonizada pela firma capitalista (pesquisas feitas nos Estados Unidos). O operacionalismo em humanities integra o conjunto de fatores multiculturais que precipitaram a viragem pós-moderna, sendo coerente com eles.
A informação não desdobra ao mesmo tempo a solução ou uma definição das causas do problema em si - o que então levaria ao nível da complexidade onde se ultrapassa a competência empírica da pesquisa operacional, isto é, efetivamente situada quanto à hipótese ou problema.
A ciência social renunciou assim, mais uma vez acentuamos, a ser ao mesmo tempo a política de sua aplicação, se o Estado ou a lei é representativa não de si mesma, mas da sociedade.
Em todo caso, se aqueles argumentos de Gorman apoiam em princípio objeções ao naturalismo que poderiam ser também feitas pela ciência social fenomenológica/ hermenêutica, o operacionalismo em humanities inversamente a qualquer paradigma intencional apenas fornece a informação do que realmente ocorre com relação a determinado problema - como vimos pelo exemplo da criminologia, onde em vez de agentes marginalizados a pesquisa revelou que tem sido protagonizada pela firma capitalista (pesquisas feitas nos Estados Unidos). O operacionalismo em humanities integra o conjunto de fatores multiculturais que precipitaram a viragem pós-moderna, sendo coerente com eles.
A informação não desdobra ao mesmo tempo a solução ou uma definição das causas do problema em si - o que então levaria ao nível da complexidade onde se ultrapassa a competência empírica da pesquisa operacional, isto é, efetivamente situada quanto à hipótese ou problema.
A ciência social renunciou assim, mais uma vez acentuamos, a ser ao mesmo tempo a política de sua aplicação, se o Estado ou a lei é representativa não de si mesma, mas da sociedade.
Vimos porém que na história das ideias, movendo-se ainda na enunciação paradigmática, com isso chega-se a um impasse paradoxal e de difícil
enunciação. Porque as ciências humanas empíricas se defrontam
desse modo não tanto com os humanismos teóricos, mas principalmente com os
antagonistas destes, o naturalismo ou neoempirismo cientificista que até
hoje - como exemplificamos em Changeaux - almeja uma ciência social normativamente universalista.
Mas examinamos detidamente como as humanities empíricas chegaram a esse confronto devido ao resultado das pesquisas em sociologia e antropologia social que só revelam a heterogeneidade e não a universalidade ou generalidade unificante.
Conforme Gorman, quanto aos cinco argumentos anti-naturalista em humanities, haveria primeiro o fato de que o observável das humanities não é reprodutível em laboratório, ocorrendo numa esfera inacessível ao controle do observador.
Mas examinamos detidamente como as humanities empíricas chegaram a esse confronto devido ao resultado das pesquisas em sociologia e antropologia social que só revelam a heterogeneidade e não a universalidade ou generalidade unificante.
Conforme Gorman, quanto aos cinco argumentos anti-naturalista em humanities, haveria primeiro o fato de que o observável das humanities não é reprodutível em laboratório, ocorrendo numa esfera inacessível ao controle do observador.
O fator de determinação cultural ou histórica do comportamento social é o
segundo fator. O terceiro argumento é a mudança social, de modo que uma verdade
de hoje pode não valer para amanhã.
A seguir temos porém, ao invés de um preceito orientador de todas as perspectivas não imperativo-universalistas (naturalistas) em humanities, apenas o dogma existencial-fenomenológico de que a ação é redutível à intencionalidade e esta, enquanto da ação humana é concebida em
termos de ação propositiva. Ou seja, orientada por valores e objetivos individuais, e
conforme Gorman, "o conhecimento social válido deve revelar o que os
próprios autores pensam, e não o que possa ser verificado subjetivamente
através de técnicas científicas reconhecidas" que só instrumentariam a
subjetividade intrínseca à montagem do próprio aparato técnico. Neste ponto só podemos registrar que o preceito é contraditório com várias posições em psicologia, contrárias à intencionalidade, assim como com opções pela história efetiva ao invés de priorística.
E sobretudo, como quinto preceito, os
valores dos observadores científicos controlam a valorização das provas e
influenciam as suas conclusões.
Todos esses argumentos se endereçam à conclusão de que uma ciência social imperativo-universalista não é possível, o que então vimos estar de acordo com o que as humanities empíricas porém não "naturalistas" propõem. Ainda que da parte destas o que ocorre não é que se ponham em dúvida os dados da pesquisa, mas sim o seu uso, a sua interpretação.
Tenho repetido que nada pode ser adiantado sobre o problema social imenso que
estamos enfrentando no terceiro mundo em geral e no Brasil em particular devido
à globalização porque nós aqui não temos pesquisa empírica para saber o que
meramente ocorre em termos de processos determinados pelas novas realidades. A alter-egologia como importação do paradigma do centro, como receita do desenvolvimento na margem, apenas alija a vontade de saber relativamente à realidade local. Por que a importação do paradigma implica que o desenvolvimento objetivado é o contrário da realidade populacional local "primitiva".
Mas como venho demonstrando, pesquisas em "história efetiva" como de Maurice
Dobb, Cl. Julien e René Dreyfuss, agora podem ser interpretadas como destoantes
de toda moldura explicativa do capitalismo como processo intrínseco
europeu/estadunidense, em vez de estruturalmente determinado pelo
avassalamento da margem (colonialismo/imperialismo). E também não sendo um
processo racional-legal ou de produtividade da empresa na própria Europa e Eua,
ao contrário da definição de Weber, mas sim processos ilegais ou para-legais e passionais.
Encontramos, portanto, a cientificidade contemporânea profundamente cindida e
problematizada, não um todo coerente. E se a multiplicidade teórica faz parte
da ciência, não obstante o limite da unidade cultural ocidental foi duramente
atingido e certamente rompido. Creio que esse é o limiar do pós-modernismo, que
só pode ser decisivamente transposto pelo enfrentamento dessa realidade.
A
partir daqui podemos notar como a ambiguidade com relação a esse enfrentamento,
na medida em que ele não pode ser de todo feito ordinariamente numa perspectiva
"central", circula de modo paroxístico na interpretação
ainda ambíguo do pós-moderno, como a que esteve sendo feita na teoria inicial sobre o tema, antes da "globalização". Como também visamos o diagnóstico da ambiguidade como sintoma da dúvida "fálica" do círculo hermenêutico.
===========
Segundo a
explicação da Geoegologia, que vim produzindo ao longo do nosso
estudo, a ambiguidade é intrínseca ao pensamento ocidental desde a época
clássica, determinada pela clivagem da unidade do referencial metafísico a
partir da descoberta do Novo Mundo, como irredutibilidade do selvagem à
totalidade do humano por aquele referencial constituído. Essa clivagem opera pois, não sobre uma receptividade da ciência ao real fenomênico da descoberta, mas sobre um desejo que não pode aceita-la como de algo independente de si.
Ao mesmo tempo natureza, e natureza da humanidade, mas não sociedade ou civilização, o
selvagem implicou um pensamento dual, expresso
nas teorias do contrato social que lançaram as bases do pensamento político
liberal. Assim, agora estou repetindo o que ficou assentado como nossa
concepção de que bem inversamente à sociedade liberal ser o resultado do
progresso da tradição ocidental filosófica, ela é construída a partir da reflexão
europeia da liberdade do selvagem americano na margem. E seu estado constitutivo,
obviamente não caracterizado de modo "autêntico", mas sem que isso
implique ter sido menos "revolucionário" nas mãos de pensadores como
Locke e Rousseau, críticos da dominação monárquico/ eclesiástica / oligárquica.
Também
essa concepção não acompanha o que tem vindo de Heidegger a Derrida e outros,
no sentido de afirmar uma única tradição "metafísica" que então se
desdobra em ciência experimental sem transformar-se profundamente. A vocação ao
devir da ciência nova desde Galileu está relacionada ao conjunto de
transformações reais que abrangem a descoberta empírica e impossível de outro
modo, da "natureza" americana. Essa natureza não pode mais ser
abstraída mesmo para uma démarche metafísica, como antes o podia ser o devir em
termos de Khora platônica ou potência/passividade pura aristotélica.
Por outro lado, a "modernidade" , como período
contemporâneo iniciado desde o século XIX, estabelece uma sociedade liberal que
não é estruturada como "contrato social", mas como Estado de direitos
(nacionalidade) em geral, afim ao conceito de Hegel. Assinalando-se por esse
meio a interconexão do pensamento "ocidental" ao equacionamento da
realidade da margem, uma vez que nesta já não se trata da condição colonial
(natureza), mas da ação concertada da emancipação política
(cultura). Assim já não resta o dualismo de natureza e civilização, porém sendo que o pensamento só existe do lado desta. Todos os homens são culturais, porém somente na Europa a cultura estabelecida produz-se como saber "para-si". Realiza-se assim o sujeito na e da história.
À geoegologia é crucial o fato de que na emergência do Estado de
direitos civis uma condição foi fundamental: a emergência, conjuntamente, das
ciências humanas e da filosofia pós-kantiana, ambas implicando o mesmo, a
saber, a emancipação como objeto da auto-compreensão, do próprio Sujeito do
saber.
O ocidente, desde a emancipação política nas Américas, não pode mais apenas
dualizar-se como telos de uma evolução desde a natureza (outro), mas apenas
como cultura entre as demais, sendo que a função teleológica não deixou de
existir só por isso, mas inversamente ela foi deslocada à ciência em si mesma.
É a teleologia do humano a partir no entanto de um outro (primitivo) que não é
senão humano, que instaura a ambiguidade insanável da tradição ocidental, a
qual porém não abrange necessariamente a pesquisa empírica da alteridade e sim
expressa-se como o sintoma da necessidade sentida como tal, da "grande
teoria", o meta-relato narrativizante - portanto, descientificizante) - da História em
termos teleológicos.
Assim, é importante notar que a "modernidade" é o momento em que pioneiramente
emerge o Sujeito pensável. Sendo também aquele em que emerge a história como
ciência, a evolução em biologia, e em política o ultrapassamento do hiato entre
"estados" de humanidade. Todos esses itens tornam possível
conceituar a inteligibilidade do devir, mas assim a sobredeterminação neurótico-dual
incide a partir da necessidade que agora os grandes relatos em humanities
devem atender, de narrativizar a história a partir de postular um seu Sujeito
- a agência ocidental da teleologia (progresso/ ciência/ Estado de
direitos).
Tratei os momentos constitutivos da modernidade em termos de objetualidades mutáveis
conforme políticas capitalístico-imperialistas, em estágios tais que após
a oralidade romântica, desde o positivismo há uma "analidade" da
dominação explícita pela interpretação racista da biologia, e o pós-positivismo
onde essa interpretação se exauriu e emergiu a pesquisa de campo com o
neocolonialismo, corresponde ao momento da ambiguidade explicitada como
formação fálica do neocolonialismo onde porém conservou-se a identidade da
estrutura como poder ocidental/epistêmico/hermenêutico de sua enunciação.
O rise estruturalista esboçou a maturação "genital", mas de
fato expressa o limite de todo investimento geoegológico, posto que não
rompe com a imaginação do poder do enunciado do sujeito epistêmico sobre o que
então não pode evitar unificar como seu outro.
E desde que isso vem se tornando incontornável pelo excentramento da
própria enunciação não-ocidental, consequentemente plural
("multiculturalismo"), o que ocorre em termos de pós-modernismo é por
um lado um Recentramento - o que Freud não previu como o discurso do pai, a
neoanalidade do adulto, com o Ocidente se valendo de todos os pseudo-recursos
para reassegurar sua unidade fictícia ou poder de unificar a alteridade por
oposição a si; e por outro lado o Excentramento em termos de ruptura para com a
estruturação "geoegológica" (ocidentalizante) da
linguagem.
Nessa ruptura, como nas humanities empíricas que reconstituem a
alteridade da linguagem de que se trata até o ponto em que isso é possível para
evitar a falsa interpretação - como estudamos na antropologia social,
especialmente - em todo caso, existe sem dúvida a problematização
plural da enunciação: o Sujeito, uma vez não sendo redutível ao uno de uma
ciência sobredeterminada pelos grandes relatos, não deixa de colocar a
heterogeneidade de sua enunciação que só o estudo dos seus textos pode vir a
apreender na pluralidade dos gêneros e culturas. Ventilei também a
transformação na linguística recente em termos de Textolinguística e
sociolinguística como franqueamento do limite do uno no inconsciente.
O essencial à perspectiva da nossa crítica da cultura Ocidental
como Geoegologia, é apreender o fato de que antes da filosofia pós-kantiana e
de Maine de Biran, nunca houve o sujeito pensável. Até aqui a inteligibilidade do Real
no seio do devir nunca havia se transmutado na questão intrínseca à experiência
inteligível como a de um Eu. O que em filosofia se traduz
"como minha experiência".
A mônada leibniziana da filosofia classicista admite uma original "noção
individual" - premida como vimos pela alteridade visível do singular na natureza em
relação ao ideal racional - e conforme essa noção se eleva a nível de essência
a subjetividade. Mas somente como identidade factual: como seria a
essência de Sexto Tarquínio ser mau, e a de César ter atravessado o Rubicão.
Segundo Leibniz, estas seriam verdades eternas ainda que não geométricas, mas como
tais elas animam uma Teodicéia, e basta ao pensamento clássico que o
inteligível se demonstre que seja, para que o intelecto tenha que apreendê-lo
necessariamente em geral.
Não há na mônada leibniziana nem em qualquer face do pensamento clássico, a
transformação do problema do ser e do pensar, tal que toda a apreensão possível
do Real e/ou do Inteligível passa ao interior da questão mais geral de como um
Eu apreende seja o que for sem cindir-se de sua auto-apreensão e sem
confundir-se a si com o que apreende.
Essa transformação desde o pós-kantismo e a psicologia de Biran, se torna nova
gênese de todo pensável (estética/ psicopatologia/ imaginação) e em
particular do racional, inteligível (ciência/ normal/ saber).
Ou seja, como termo de um progresso histórico/espiritual cujo protagonista não
é o sujeito epistêmico em geral sem ser o Sujeito histórico dessa realização do
progresso, o Ocidente, que começa assim desde a oralidade romântica a
enunciar-se pelo apagamento do objeto que premiu o pensamento como
outro-sujeito que inscreveu o enunciado na subjetividade. A oralidade é essa fase em que o objeto margem está pluralizado nas suas próprias efetivações desejantes. Os povos são subjetivados, eles tem autonomia cultural. A oralidade romanticista, a compreendemos por isso que nela todos são primitivamente "eus".
Porém só é assim para um só desejo, que em todos os objetos marginais dotados de autonomia não pode contudo discernir nenhuma independência da própria enunciação. O sujeito do enunciado é apenas o Ocidente, a realização da ciência.
O primitivo como sujeito não auto-compreendido, que não integra a história
desse progresso, é o que a ciência como racionalidade do sujeito para si da
ciência, auto-compreendido em sua possibilidade epistêmica, deve no entanto
intrinsecamente explicar - do contrário, a ciência não seria a inteligibilidade
universal, isto é, aquela cujo sujeito está explicado como vem a ser possível enquanto
epistêmico. A História é ao mesmo tempo a ciência nascente e esse nascimento como a realização do Sujeito de si. As demais culturas não tem "história" - a diferença crucial agora passa entre o histórico e o somente mítico.
A realização do Sujeito da História é a subjetividade na história - e eis a trajetória única da sanidade política "ocidental", esquecido o discurso de que seu estofo vem de ter demonstrado qual é a essência do ser primitivo, nessa época ainda sendo pensado livre singular, ainda que destinado na cultura como esse singular inter-agente do sentido.
Sempre mais as humanities são a parole dessa alteridade, mas sempre
mais os grandes relatos do desenvolvimento do Saber se sobrepõem para erigirem-se como o "verdadeiro"
conhecimento ou conceito.
A ambiguidade, produto de uma abstração estruturante, não é entre
Sujeito/objeto sem ser mais profundamente entre Sujeito e sujeito, Ocidente
(Centro e telos ou Ego da História do progresso) e não-ocidental que deve
apenas refazer a história pelo recalque da heterogeneidade local, sua
alteridade sendo desdobrada numa alter-egologia desde que não pode não ser
cooptado à "História" pelo capitalismo/imperialismo, evolução, etc.
A "margem" se institui na matriz dupla da exclusão da História
teleológica do progresso e iimpossibilidade de ter qualquer História autônoma.
O capitalismo, pela nossa visão da Geoegologia, é assim reconceituado em termos de assimetria
internacional do capital, como dominação cultural que estrutura
a duplicidade entre Centro e Margem - ou seja, como processo de
marginalização (anexação da margem); e não apenas
dominasção econômica, tampouco isso sendo algo somente determinado pelas
condições mais tardias do capitalismo (neocapitalismo norte-americano; economia
de multinacionais).
A emergência da modernidade é portanto articulada pela historicização do intelecto e evolucionismo biológico. Porém a mola subjetiva da mudança foi transposta no avançar ao meio do século XIX, pelo darwinismo. Paralelamente, a revolução industrial transformava a independência das ex-colônias americanas em economias dependentes, ou seja, construía-se intrinsecamente como imperialismo.
O positivismo como reação anti-romântica transformou, pois, consequentemente, o objeto plural margem, numa unidade sadicamente anteposta como o objeto dominável do sujeito. A concepção darwinista do primitivo rompeu com o indivíduo na origem, instalando aí a concepção da horda, coletividade de seres sem autoconsciência, movidos pelo instinto.
O homem produto do meio transforma pois, a objetividade, na identidade da ordem social - exemplarmente, a produção técnica, de que a inteligência é epifenômeno, em Marx assim como na antropologia positivista de Morgan e outros. Ademais, o epifenômeno não é inteligência subjetiva, mas social-racial.
As culturas no positivismo são adaptações raciais, e pré-mendeliano, o darwinismo lança o conceito determinista da raça como constante não só fenotípica, mas de todo aparato cultural linearizado conforme o que seria o estágio do conhecimento técnico. O miscigenado não tem, pois, cultura. O negro e o índio as tem, mas adaptam-se apenas pelo instinto e a força a meio ambiente hostil. Somente o branco adaptou-se pela inteligência e assim produziu a cultura científica. O homem é, porém, desde a origem proto-cientista, curioso da natureza, e a magia é pois a tentativa inicial da explicação e domínio técnico sobre as coisas. A filosofia é o estágio seguinte, porém uma fantasia de explicação conceitual que elide o devir, portanto a filosofia é o que não tem sentido, tendo sido superada afinal pela ciência. - como nos três estágios da lei evolutiva de Comte.
O ocidente já não é a finalidade da emancipação liberal, mas a finalidade da superioridade de um grupo-sujeito da história, o protagonista da revolução industrial - lançando-se assim a primeira teoria do "capitalismo", porém como todas mais alijando da definição a efetividade da dependência à alocação de mercados cativos na margem. De modo que se faz não só como industrialização no centro, mas ativamente como contra-industrialização na margem.
Ora, a rígida separação do inferior e do superior, como do ocidente industrializado ao primitivo ou atrasado, logo deixa de ser postulável. Na transição cronológica ao século XX, o neocolonialismo avançando a Ásia e África, torna visível a interdependência econômica do subdesenvolvido e do desenvolvido. Mas nesse novo meio de interação do centro e da margem, as premissas da evolução linear da antropologia positivista não se verificaram. A pesquisa in loco havia se iniciado, para efeitos de informação confiável dos governos neocoliniais. O resultado foi o funcionalismo.
O postulado da ditadura como meio pelo qual o grupo protagonista da história evolutiva - é o fundamento do neoliberalismo econômico - deve abater os "fracos" ou não-inteligentes para que a humanidade se preserve futuramente, estava agora menos favorecido. As culturas não foram porém vistas como meios heterogêneos ou em mudança, mas apenas como totalidades fechadas. A noção de que não havia autoconsciência primitiva permaneceu, porém a cultura já não seria biologicamente função adaptativa da raça, mas dotação de significado a partir da efetividade do desempenho de funções por grupos humanos cujos membros interagiam por meio de papeis que deviam ser imaginariamente significativos dentro da estrutura do mito.
Se a emergência da pesquisa in loco é coerente com uma vontade de saber que não existia antes, o desejo deve novamente atribuir uma pluralidade à instância do sentido. O objeto "margem" novamente não é a unidade racista a ser dominada pelas raças "fortes" para isso destinadas - isto é, as etnias brancas.
Na era positivista, o mito ariano e a unidade do indo-europeu tornou-se o foco de estudos que deslocou a informação de viajantes sobre a América, tão referencial na teoria política classicista como no exotismo romanticista. De fato, ao contrário do que Foucault parece pensar, não foi um salto brusco das teorias clássicas sobre a origem comum das línguas até a problemática do funcionamento da linguagem na modernidade. A flexão não surgiu do nada, mas das pesquisas que visaram, desde estudos das culturas e línguas exóticas, a unidade do indo-europeu para responder à questão de se aquelas culturas e línguas eram ou não unificáveis num parâmetro absoluto e único da mentalidade do Homem. Sempre mais essa possibilidade ficava cortada pela duplicidade do desenvolvimento. Em todo caso, essa duplicidade é também a ambiguidade que não permite a pluralidade mas apenas a diferença na destinação do mesmo. A afirmação da unidade cultural do indo-europeu serviu à intensa segregação racista do evolucionismo biologista do positivismo. Mas na era funcionalista, isso continuou por outro meio.
Agora havia se esfumaçado a linha divisória positivista radical do objeto dominado por uma lógica da dominação - elide-se o sujeito dominador na forma do "eu", o que transcorre na história é o determinismo da técnica ("produção"/saber) de que o "eu" em sua autoconsciência e capacidade epistêmica é o epifenômeno desde a evolução capitalista. Afora a ideologia que o fantasia em causalidade autônoma, movida essa fantasia pelos instintos e não por alguma mente ela mesma autônoma.
Mas na decorrência do funcionalismo, as sociedades voltam a ser culturalizadas, e como totalidades autônomas. Porém essa pluralidade testemunha apenas de uma boa vontade funcionalista, O ocidente atribui ao primitivo uma igualdade, enquanto o auto-conceito antropológico se tornou o homem passional, e por isso na origem postulou-se o mito. Ao invés do proto-cientista ainda que movendo-se pela curiosidade instintiva, o primitivo xamã é um ser do significado, imaginação em ato movendo-se pelas emoções em sua relação com o meio na intersubjetividade.
O símbolo porém é o novo determinismo - o sujeito é o epifenômeno, sim, mas da imaginação simbolista. Ora, o indo-europeu é mito originário, do mesmo modo, mas então tratou-se da superioridade da trajetória. Porque o indo-europeu facultou o trânsito à ciência? A superioridade europeia devia ser transcrita nas inúmeras formas de responder a essa pergunta, sem elidir o paternalismo da igualdade diferenciada nas origens. Como hoje compreendemos, é a forma da pergunta que não permite questionar a construção da oposição em que o ocidente se auto-conceitua uma unidade de trajetória única, por exclusão do não-ocidental, mas como se houvesse assim demonstrado a coerência de algum discurso de Platão a Galileu, Darwin a Mendel e Watson-Crick, Piaget ou o parâmetro operacional.
Se desde há décadas uma unidade assim é o que se questiona de qualquer cultura, e se o conceito de "raça" já se invalidou na biologia genética, e quanto à construção da oposição gerativa do Ocidente, Eduardo Said é aqui nosso precursor, a ambiguidade do novo tipo de racismo tradicionalista-passadista que foi a seu tempo o funcionalismo e hermenêutica, conservara ainda o dogma de que o primitivo não tem autoconsciência. Vemos pois a defasagem do culturalismo funcionalista ao presente, assim como de um conceito de cultura restrita ao significado totalizante do mito mas que dependia na verdade do conceito biológico da unidade da "raça". Mas também conservara assim a superioridade do mito da raça do guerreiro-indo-europeu originário do ocidental, sua vocação belicista, sua paixão conquistadora, etc.
O ocidente funcionalista-fálico quer saber como é o homem originário, mas apenas para o melhor personificar como também ao que pelo saber o ultrapassa.
Como na fase fálica da formação infantil, a criança quer saber como ela nasceu e como os pais fazem sexo, assim como para que serve o sexo dela mesma; porém não quer realmente aceitar a diferença sexual que a obrigaria a entender a alteridade de si aos pais, assim como deles mesmos entre si. A diferença sexual é ao mesmo tempo pressentida mas ocultada, e o que a criança realiza de boa vontade é atribuir a sexualidade aos pais - desde que ela pensa que ambos são iguais e que o sexo é realizável desse modo. A analidade não é de fato ultrapassada na fase fálica, a sexualidade da mãe e a genitalidade não é ainda atingida, porém já existe a necessidade de considerar a pluralidade dos iguais.
O resultado da ambiguidade fálica no inconsciente geopolítico, ou discurso construtivo do Sujeito da História a partir da disposição do objeto margem - sendo o capitalismo a prática marginalizante - a corrida neocolonialista e o racismo cultural-tradicionalista, aportou pois à destruição do capitalismo clássico-europeu.
A ruptura genital poderia ser atribuída, na época do pós-guerras, à consciência das nações "em desenvolvimento", tendo havido a insipiente industrialização na margem porquanto os países europeus estavam demasiado ocupados com a guerra para a isso impedir. Mas o que se seguiu nessa época foram os artifícios do ocultamento dos resultados da pesquisa empírica e das evidências seja do multiculturalismo, seja do imperialismo como fator intrínseco do capitalismo, devido a este ser agora o americanizado.
Desde o freudo-marxismo estruturalista até a retórica ambígua do neomorganismo de Deleuze-Guattari, a trajetória do cegamento da grande teoria europeia à pesquisa empírica comprometeu a previsão freudiana da objetividade "genital" ou do "simbólico" lacaniano. Não obstante o discurso ter se esclarecido na atribuição da alteridade, o estereótipo da margem é ao que se limitam os totalitarismos programáticos de um idealismo que na máquina não consegue discernir o fenômeno industrial-imperialista como dominação cultural, apenas o sistema formal do funcionamento abstrato. A objetividade do estruturalismo na atribuição da alteridade, que porém se compromete pela rigidez de sua homologia sócio-progressista, se atenua num novo patamar ostensivo da ambiguidade, com o pós-estruturalismo que inclusive utiliza-se de motivos ligados ao funcionalismo como Bérgson, Adorno ou Heidegger.
Paralelamente a industrialização incipiente na margem se transformou na cooptação do imperialismo norte-americano pela política de exportação de capitais. Ao invés de prosseguir pelas vias regulares do protecionismo estratégico e fortalecimento do mercado interno, houve uma série de intervenções que obrigaram a industrialização local a se reduzir a escalada de endividamento externo, que comprometiam por contratos absurdos a dependência total política e econômica.
A seguir, mesmo as possibilidades de autonomia que assim assomavam - e na época estava havendo as guerras por descolonização afro-asiáticas - foram solapadas pelos golpes estadunidenses que implantaram ditaduras visando a liberar territórios para intervenção do capitalismo central (carteis e multinacionais). Na globalização a denacionalização dependenteista atingiu o paroxismo, e a industrialização local obtida de qualquer modo foi alienada por leilões de governos títeres a grupos estrangeiros representativos do capitalismo "central".
A ambiguidade se manteve portanto, independente do genital geopolítico do pós-guerras, assim como o cegamento do paradigma às suas próprias condições de enunciação. Seria preciso apor aqui meus estudos que tem evidenciado o liame discursivo da psicopatologia e antropologia - em todas as escolas, como na própria psicanálise - de modo que o sócio-progressismo se tornasse parâmetro da normalidade psíquica. Assim escolhas culturais são, como na psicanálise, amiúde reduzidas a expressões de fases arcaicas. Só que o oposto, a resolução evoluída, é apenas o mandamento da cultura cristã (monogamia, regime assalariado, etc), na forma contemporânea. Porém por questões de espaço, estes estudos estão sendo apresentados em blogs especialmente voltados ao tema.
Aqui devemos notar que o pós-modernismo está transpondo o limite "culturalista" do cegamento oriundo dos metarrelatos. A própria tessitura da teoria já não está restrita ao Centro. A interlocução multicultural na margem elide desde algumas décadas, a limitação da cópia do metarrelato assim como das produções culturais do "centro" - ao menos onde e quando não se foi ainda atingido pela brutal censura maquinizada da globalização como nova dominação info-midiática. A questão da subjetividade está sendo reposta na pluralidade das culturas que já não se podem considerar estagnadas do lado de lá da linha do progresso capitalístico. A duplicidade do enunciado e da enunciação é algo inerente ao que a linguagem põe ao sujeito como ao seu problema na cultura, e esta é geopolítica e histórica, não totalidade fechada. Assim podemos afirmar o pós-modernismo teórico e estético em termos de um excentramento real.
Porém enquanto cenário de época histórica, a pós-modernidade é o recentramento consequente da recusa da pesquisa empírica, praticada pelos ocidentalismos que aliás, depois de algum tempo foram assumidos ostensivamente pelo pós-estruturalismo que havia começado por negá-lo - ver O que é a filosofia, de Deleuze-Guattari, ou o artigo de Jameson sobre a literatura do terceiro mundo. Tornaram a praticar uma divisão radical do centro e da periferia, já não há o conceito de sociedades em desenvovimento, pelas razões contraditórias da reserva do saber tecnológico e do limite ecológico-mundial.
A dominação info-midiática é violento recalque da heterogeneidade e da cultura, pela imposição de uma neoanalidade que elide o sujeito pela sua redução à indústria da "informação". O conflito leste/oeste cedeu ao novo planisfério do conflito norte/sul. Este planisfério utiliza-se do modelo cartográfico centro(desenvolvido/hemisfério norte)-periferia (subdesenvolvido/hemisfério sul).
Aqui vemos a ambiguidade máxima. A imagem não é decidível entre um mundo articulado por uma lógica imperialista da dependência, ou dois mundos, subdesenvolvido (sul) e desenvolvido (norte) como realidades segregadas do ponto de vista sócio-cultural e político. Escusado lembrar que o terceiro mundo ao sul é oriundo da colonização desde o descobrimento das Américas, enquanto o norte é composto pelas nações do centro colonizador. Na progressão do imperialismo, o centro se tornou os Estados Unidos, com a bipolaridade representada pela URSS tendo se desfeito, porém para um novo cenário de competição acirrada de potências internacionais devido ao incremento da tecnologia.
Não obstante a ambiguidade da imagem, a pós-modernidade não pode já elidir a visibilidade do capitalismo como imperialismo intrínseco. Assim o conflito está figurado em torno da história da colonização e imperialismo.
Em todo caso, independente da ambiguidade, o mapa planisférico define a geratividade do problema que a planetarização das relações políticas e sociais vem pondo à humanidade, como geo-ego-logia.
===== (em 12/09)
Nenhum comentário:
Postar um comentário